domingo, agosto 30, 2015

Psicologia - Frase da semana, 30AGO15: A EXTRAORDINÁRIA CAPACIDADE LINGUÍSTICA DO BEBÉ HUMANO

Psicologia - Frase da semana, 30AGO15: A EXTRAORDINÁRIA CAPACIDADE LINGUÍSTICA DO BEBÉ HUMANO

«Babies all over the world are what I like to describe as "citizens of the world." They can discriminate all the sounds of all languages, no matter what country we're testing and what language we're using, and that's remarkable because you and I can't do that. We're culture-bound listeners. (...)» (Patricia Kuhl)


O que faz o espantoso sucesso linguístico dos bebés?
Primeiro: os bebés focam-se em TODOS os estímulos que lhes colocam e constrói frequências estatísticas dos mais usados e dos menos usados.
Segundo: e muito mais importante! O bebé aprende muito mais através da interacção humana activa do que a observação passiva da televisão e da audição, também passiva, de sons.
Atenção, pais! Atenção, professores! Atenção, ministros da Educação!
Há mesmo que dar uma volta muito grande à organização social das famílias: os pais têm mesmo de ter tempo para os filhos! Para falar com eles; e falar bem, com muita clareza, sem comer as sílabas e sem abebezar as palavras!
Há que privilegiar nas escolas, o diálogo, as conversas; a interacção entre as crianças, e entre as crianças e os professores - ponham-se mesmo os computadores ao canto! Ou usem-nos apenas como suporte à interacção social.

domingo, agosto 23, 2015

Psicologia - Frase da semana, 23AGO15: FALAR É UMA NECESSIDADE, OUVIR É UMA ARTE

Psicologia - Frase da semana, 23AGO15: FALAR É UMA NECESSIDADE, OUVIR É UMA ARTE (1)

«Cerca de sessenta por cento do nosso tempo a comunicar é dedicado a ouvir. Mas não somos muito bons nisso, em geral, só conseguimos reter 25 por cento do que ouvimos.» (Julian Treasure)
Por isso, para fazermos bom uso deste aviso, não vamos falar mais; vamos já ouvir a breve e muito interessante palestra de Julian Treasure. Aqui. Com legendas em português.

English:
«We spend roughly 60 percent of our communication time listening, but we're not very good at it. We retain just 25 percent of what we hear.»

(1) A autoria desta afirmação é geralmente atribuída a Johann Wolfgang von Goethe.

domingo, agosto 16, 2015

Psicologia - Frase da semana, 16AGO15: ESPÍRITO DE EQUIPA. QUEM O TEM?

Psicologia - Frase da semana, 16AGO15: ESPÍRITO DE EQUIPA. QUEM O TEM?

A opinião de Jean Monnet desafia-nos:
«[Kaplan] era alguém que tinha espírito de equipa em grau muito elevado, qualidade rara e desconhecida por ser, por natureza, atributo dos homens modestos.» (Memórias, Ulisseia, 2004 (1976), p. 228-9)
"Eu sou o garante do espírito de equipa...
E vocês, então, fecham a equipa  e ficam contentes com isso."
«Il avait à un très haut degré l'esprit d'équipe, qualité rare et méconnue parce qu'elle est, par nature, l'attribut des hommes modestes.»
Jean Rostand, compatriota de Monnet, 6 anos mais novo, que viveu a mesma história europeia e mundial, até 1977, disse assim sobre a modéstia dos homens modestos:
«La modestie témoigne d'ordinaire qu'on a l'orgueil à vif.»
«Normalmente, a modéstia é testemunho de um intenso orgulho interior.» 
Será que Jean Rostand nos está, implicitamente, a dizer que a modéstia se conquista e se auto-disciplina? ... Será que Monnet pensava também assim, ou para ele a modéstia era um dom natural?...
Já agora, e, se calhar, fruto da mesma lógica que o fez escrever assim sobre a modéstia, Jean Rostan escreveu também o seguinte:
«La science a fait de nous des dieux, avant même que nous méritions d'être des hommes.»
«A ciência torna-nos deuses, antes mesmo de merecermos ser homens.» 


domingo, agosto 09, 2015

Psicologia - Frase da semana, 09AGO15: INFORMAÇÃO, CONHECIMENTO, SABEDORIA

Psicologia - Frase da semana, 09AGO15: INFORMAÇÃO, CONHECIMENTO, SABEDORIA


Rutherford D. Rogers
«Estamos atolados em informação e carecemos de conhecimento.» (Rutherford D. Rodgers)

We’re drowning in information and starving for knowledge.

Notável apaixonado pelos livros e pela organização das bibliotecas (com uma componente investigativa intensa), este praticamente centenário cidadão americano (morreu em Fevereiro deste ano, a chegar ao centésimo aniversário) sabe bastante bem o que diz.
A afirmação pede o esforço e a extensão de uma tese, mas o o tempo é hoje especialmente curto.
Acrescentarei apenas duas coisa, praticamente deduzindo uma da outra:
- o conhecimento resulta do que se faz com a informação;
- e o que se faz depende do treino da atenção, da reflexão e da assimilação, que se educam, que se aperfeiçoam com a experiência.
Joseph Collins, americano também, chegava aos 50 anos quando Rutherford Rodgers nasceu; era médico neurologista e tal como R. D. Rodgers, amante de livros. No que diz respeito à experiência, ele deixou-nos escrito este estimulante aviso:
«A pessoa prudente tira proveito da experiência pessoal; a sábia, da experiência dos outros.»A prudent person profits from personal experience, a wise one from the experience of others.

domingo, agosto 02, 2015

Psicologia - Frase da semana, 02AGO15: SOBRE O HOMO EGOISTICUS

Psicologia - Frase da semana, 02AGO15: SOBRE O HOMO EGOISTICUS


«Não há dúvida de que o egoísmo do homem e das nações resulta
http://mankindinthebalance.blogspot.pt/2010/03
/can-humanity-still-improve-its-ways.html
em muitos casos do conhecimento imperfeito do problema que se coloca, sendo que cada pessoa se inclina para ver apenas o aspecto do seu interesse imediato.»
(Jean Monnet, Memórias, Ulisseia, 2004 (1976), p. 82)

Não sou adepto, ou melhor, sou muito reservado - sou mesmo desconfiado - acerca destas analogias entre o particular e o geral, entre o individual e o colectivo.
O que pretendo relevar especialmente com esta citação de um dos sonhadores-fundadores da Europa unida é a importância que ele dá à dimensão da informação necessária para que os indivíduos e os grupos possam pensar...com menos egoísmo nos assuntos ou questões que são inerentes à vida em grupo, seja ele nuclear (a família, a escola, o local de trabalho), seja ele extenso (as comunidades de pertença, a nação).
A incerteza, a dúvida, o desconhecimento geram insegurança; a insegurança gera retraimento, medo. Preocupado em salvar a sua pele, o indivíduo retrai o companheirismo, a cooperação, a solidariedade.
O egoísmo estará para o indivíduo assim como o nacionalismo estará para os países e as nações.
Noutra parte das suas Memórias, para obstar à emergência destes sentimentos negativos, Monnet empenhava-se da seguinte maneira:
Púnhamos as cartas na mesa e todos podiam ter a certeza de que usávamos a mesma linguagem com todos. Se nem sempre dizer tudo a todos, é indispensável dizer a todos a mesma coisa.
 Robert Cecil - que foi Prémio Nobel da Paz em 1937 pela sua contribuição para a constituição da Sociedade das Nações, fundada em 1919, em consequência directa da Primeira Grande Guerra -, era um estadista profundamente respeitado por Monnet. Dele Monnet cita a seguinte afirmação nas suas Memórias (p. 84):
Se as nações são no fundo egoístas, estúpidas e melindrosas, nenhum instrumento, nenhum mecanismo as conseguirá deter." 
Ainda segundo Monnet, a grande esperança de Cecil para se conseguir ter mão neste fundo egoísta era a seguinte: a opinião pública. Sim, a opinião pública. Informada, é claro.
E quanto vale a opinião pública? Quase 90 anos depois das crenças e descrenças de Cecil, James Surowiecki escreve um  muito interessante livro, A Sabedoria das Multidões, em que se mostra - convicentemente! - muito animado sobre o tremendo valor da avaliação das multidões, dando bom eco da optimista crença de Cecil. Assim ambos tenham razão!

domingo, julho 26, 2015

Psicologia - Frase da semana, 26JUL15: NO DIA DOS AVÓS, O "HOMO HOMINI LUPUS"

Psicologia - Frase da semana, 26JUL15: NO DIA DOS AVÓS, O "HOMO HOMINI LUPUS"


William Bouguereau (1825-1905) Dante et Virgile
(Virgilio e Dante conversam enquanto
um homem devora outro homem.)
«O homem é o lobo do homem.»
(anónimo, "Um Mulher em Berlim, Asa, 2014, p. 196)
Qual ironia, qual absurdidade, as Culturas Humanas puseram às costas de um animal profundamente gregário, a maldade que, afinal, é tão intrinsecamente humana. Até nos contos infantis tradicionais, o lobo é o mau da fita.
Parece haver consenso na atribuição da autoria da afirmação: Plautus, em Asinaria, escreve: "Lupus est homo homini, non homo, quom qualis sit non novit".
A fórmula reduzida, se calhar, é bem mais verdadeira - é que Plautus ainda punha uma condição: a da maldade do homem se exercer sobre o Outro que o homem não conhece. A experiência dos homens, a experiência das culturas, a experiência das civilizações tem mostrado que, infelizmente, não é só na condição do Outro desconhecido.
São as culturas dos grupos humanos que produzem a "lobalização" do homem.
Celebra-se  neste dia do calendário, no Brasil e em Portugal, o Dia dos Avós. Embora as raízes pareçam cristãs, quantas celebrações os cristãos penduraram em rituais mais ancestrais que eles? Por isso, quanto às origens, não trago tese...
Penso que a celebração é mais forte no Brasil do que em Portugal. Mais uma vez, desta questão não faço tese.
Oportuno parece-me ser um texto que li há um ou dois dias. É um excerto do livro que já trouxe no apontamento anterior, e do qual também retirei a máxima de Plautus (a forma reduzida). É sobre a maneira de tratar os velhos, que fazem a quase totalidade dos avós; e sobre como alguns deles conseguem ir um pouco além do sofrimento resignado:
SEGUNDA-FEIRA, 4 DE JUNHO DE 1945 [em Berlim, logo após a ocupação pelas tropas russas, no final da Segunda Grande Guerra]
 [...] Cerca das seis da tarde, empreendo a longa caminhada de regresso a casa. As ruas estavam cheias de pequenas caravanas de gente cansada. De onde vêm? Para onde vão? Não sei. A maioria dos grupos dirigia-se para leste. Os veículos assemelhavam-se todos: miseráveis carrinhos de mão sobrecarregados com sacos, caixas, malas de viagem. À frente vai uma mulher, ou o filho mais velho, que com a ajuda de uma corda puxam o carrinho. Atrás seguem crianças ou o avô, que empurram. Em cima do amontoado do carrinho, vejo ainda outros seres humanos: crianças muito pequenas ou pessoas idosas. Estes idosos, sejam homens ou mulheres, têm um aspecto terrível no meio de todos aqueles trastes. Pálidos, decrépitos, já meio mortos, semelhantes a molhos de ossos. Nos povos nómadas, como os lapões ou os índios, os velhos costumavam enforcar-se numa árvore quando já não tinham qualquer préstimo, ou esconder-se na neve para morrer. A civilização cristã carrega-os consigo enquanto respiram. Muitos deles terão de ser enterrados na berma da estrada.
«Honrai os vossos velhos.» De acordo, mas não em fuga sobre carrinhos de mão. Não é o local ou o momento propícios para isso. Pus-me a reflwctir sobre a posição social dos velhos, sobre o valor e a dignidade daqueles que viveram longo tempo. Outrora, eram os senhores da propriedade. Mas no meio das massas sem posses, às quais a maioria pertence nos dias que correm, a velhice não tem qualquer valor. Já não é venerada, mas apenas digna de compaixão. No entanto, é justamente essa posição ameaçada que incita os velhos e atiça a sua vontade de viver. O desertor do nosso prédio contou à viúva que tinha de esconder da sogra tudo o que fosse comestível. Ela rouba sempre que pode e come tudo às escondidas; devora sem quaisquer escrúpulos as rações da filha e do genro. Se lhe dizem alguma coisa, começa a lamentar-se afirmando que querem matá-la à fome, ou até assassiná-la, para herdar o seu apartamento... E, assim, respeitáveis matronas transformam-se em animais, agarrando-se ao que lhes resta de vida.» (pp. 273-4)
Na minha mente, entretanto, tenho hoje os meus alunos que, com evidente carinho, têm feito os seus trabalhos monográficos sobre os seus avôs; e tenho também a Mariana e a Marilene, primas que na distante Bahia vão hoje celebrar especialmente, muito carinhosamente, os avós e os idosos.

domingo, julho 19, 2015

A ordem social é da Humanidade, igual para todos; ou é diferente de uns para os outros?

Psicologia - Frase da semana, 19JUL15: A ORDEM SOCIAL É DA HUMANIDADE, IGUAL PARA TODOS; OU É DIFERENTE DE UNS PARA OS OUTROS?


«A burocracia surge-me como um fenómeno dos bons
tempos. [...] em toda a parte, e em cada abrigo, vai-se estabelecendo uma espécie de ordem, de disciplina. [...] Deve fazer parte da nossa natureza.»
(anónimo, "Um Mulher em Berlim, Asa, 2014, p. 23)
Esta ideia - trazida a escrito por uma senhora alemã, berlinense que testemunhou a chegada das tropas russas à capital alemã em 1945 -, é abundante em ingredientes para ser tomada como verdadeira, correcta e absoluta; mas... mas eu "desconfio" dela, já digo porquê. Para já, por que razões se tornará fácil tomá-la como disse - verdadeira, correcta, absoluta:
1) é escrita por alguém que deseja manter-se anónimo; quer dizer, não persegue a fama, logo, é uma pessoa honesta.

2) o relato é verdadeiro, pertence a um dos momentos mais infelizes da História Moderna, que ocupa ainda hoje uma posição de grande destaque no pensamento das culturas humanas; e é de estudo obrigatório nas escolas de muitos países do Mundo.

3) é escrito por uma mulher, que crenças estereotipadas e preconceituosas põem como mais sincera e verdadeira do que os homens, como se da mãe boa, sincera e frontal se tratasse. Diz o prefácio do livro: «Sem o testemunho da autora, a crónica dos nossos tempos, que tem sido escrita quase exclusivamente por homens, seria parcial e incompleta».

4) é o pensamento de alguém que está olhos nos olhos com a morte; ou seja a tragédia em que participa, fruto de outro pensamento preconceituado e estereotipado, dá-lhe uma aguda consciência do sentido da vida, dos valores e dos sentimentos de humanidade.

5) é o pensamento de alguém cujo relato nos faz deduzir que é uma pessoa boa e culta.

Pois, pode ser que sim... mas eu, como já dei a entender, ainda não estou convencido. Por agora ainda "desconfio" deste pensamento:
- não tenho certezas sobre este assunto, nem alguma vez, até agora, me preocupei em ter. Como, entretanto, fui confrontado com ele (no fundo, um assunto sobre a essência e a especificidade da Natureza Humana) pelo livro da anónima autora, não posso deixar de me interrogar sobre o que, afinal, penso sobre isto; e se, numa aula, um aluno me perguntasse a minha opinião sobre o assunto, o que lhe responderia eu?
Ora, se a autora foi pressionada pelas circunstâncias da vida pessoal com que se confrontava para pensar como veio a deixar escrito, eu também penso ligando o assunto/ a questão/ o tema às circunstâncias actuais da minha vida pessoal, ou melhor, das circunstâncias da vida em sociedade em que, quer queiramos, quer não, os meios de comunicação social, agressivamente, nos trazem, sem que seja possível escapar a essa pressão informativa quase propagandista.
Quais são essas circunstâncias actuais? São a Grécia, a Alemanha; os resgates e os perdões das dívidas; os povos que trabalham, os que são preguiçosos; os que são solidários e os que são implacáveis; e a regras que se cumprem, as que não se cumprem, mas que - dizem uns mais que outros; e todos de maneiras diferentes - nunca deveriam deixar de ser cumpridas.
No fundo, num pensamento ainda muito sincrético, pouco elaborado, pergunto-me, tendo em mente a expressão de ódio e de intransigência dos líderes políticos da Alemanha e outros dirigentes políticos do Norte da Europa em relação aos gregos, se o que está em causa não será a mais abismal incapacidade de tais líderes e dirigentes europeus entenderem que outros grupos humanos pensem de maneira diferente sobre as regras e a ordem social.
Será que a autora anónima, possivelmente tão alemã quanto Merkel e Schäuble, toma a nuvem por Juno e projecta na Humanidade Universal um certo tipo de organização social que se enraizou na genética cultural de apenas um ou alguns poucos povos do Mundo?
E nestes (des)encontros entre o que os outros são e o que fazemos, nas nossas mentes, eles serem nós todos vamos tecendo os novelos do grande (des)concerto do Mundo. No fundo, se eu não me entende com os outros, como posso esperar que os outros se entendem comigo?
A luta da minha circunstância não é, como tantos líderes europeus parecem pensar, entre a ordem e a desordem (ou não-ordem), em sentido absoluto; a mim, parece-me ser entre uma certa ideia de ordem (dominante, a alemã) e outras ordens.(1)

A citação de todo o parágrafo do anónimo autor:
«A burocracia surge-me como um fenómeno dos bons tempos. A verdade é que todas as repartições são dissolvidas logo que começam a cair os primeiros estilhaços de granada. (A propósito, agora está tudo muito calmo. Uma calma inquietante.) Deixámos de ser governados. E, no entanto, em toda a parte, e em cada abrigo, vai-se estabelecendo uma espécie de ordem, de disciplina. Quando a minha casa foi bombardeda, reparei como todos partiam ordeiramente, os que haviam estado soterrados, os feridos e os traumatizados. Também aqui na cave do prédio prevalece a força da ordem, um espírito que dirige, organiza e comanda. Deve fazer parte da nossa natureza. A humanidade já terá funcionado assim na Idade da Pedra. Seres gregários, instinto de sobrevivência da espécie.»

(1) Será esta "força da ordem", como lhe chama a autora, a explicação da espantosa recuperação da sociedade alemã depois das duas Grandes Guerras? Mas, para que isso fosse possível, não terá sido muito importante outra concepção da ordem social e do "gregarismo" entre os Povos, como, por exemplo, os gregos deram mostram quando colaboraram no perdão da grande dívida alemã depois de uma dessas guerras?