domingo, agosto 14, 2016

NUNCA VISTE NENHUM GNOMO VIVO, NÃO VISTE MESMO?

Psicologia - Frase da semana, 21AGO16: NUNCA VISTE NENHUM GNOMO VIVO, NÃO VISTE MESMO?
«Ainda há gnomos, mas escasseiam muito mais do que no meu tempo de criança. Há quem diga não ter visto nunca um gnomo vivo. Lastimo sinceramente essa gente, pois deve ter a vista defeituosa ou os olhos cansados por ler em demasia.» (Axel Munthe, "O Livro de San Michele, 6.ª ed., Lisboa, Livros do Brasil, 1965?, p. 18)

Ou - talvez dissesse o médico sueco, se reescrevesse o "Novo prefácio" do seu tão famoso livro - por se entreter com televisão e jogos de computador em demasia.
Numa reedição ainda muito próxima da primeira, e depois de o livro ter já sido traduzido para outras língua, Munthe rebate a opinião de "um famoso autor inglês", que chama à História de San Michel o "Livro da Morte".
Educadamente, atentamente, Munthe começa por condescender que sim: «Talvez seja assim, pois raras vezes a morte deixa o meu pensamento".» E logo a seguir argumenta com a autoridade de um génio do Mundo, Michelangelo: "Non nasce in me pensier che non vi sia dentro scolpita la morte." (Não nasce em mim pensamento em que dentro não seja esculpida a morte). Alguns parágrafos mais à frente, finalmente, afirma decididamente a sua convicção:
«O Livro de San Michele é o livro da vida. A vida é a mesma; é com o era dantes, pois não a variaram nem o tempo nem o destino, e permanece indiferente às penas e às alegrias dos homens, misteriosa e inexplicável como a Esfinge; mas o Mundo em que vivemos, o cenário da tragédia, é constantemente transformado pela mão do grande Director de Cena, para que os espectadores não se cansem do monótono melodrama, correndo sem sentido atrás da felicidade. O Mundo onde vivíamos ontem não é o mesmo em que vivemos hoje; marcha sem descanso por seu funesto caminho, através do infinito, até à destruição, como nós mesmos Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, disse Heráclito.Há homens que andam de gatas, outros montam a cavalo ou correm em automóvel, alguns cruzam os ares à altura dos pombos-correios. Não é necessária tanta pressa, pois todos podemos estar certos de chegar a tempo à mesa da peregrinação.» (ibidem, p. 17)
Axel Munthe nasceu em 1957, viveu a passagem do século XIX para o século XX, testemunhou a tragédia da 1.ª Grande Guerra, a Grande Crise Mundial dos finais dos anos 20. Testemunhou também grandes progressos tecnológicos e científicos.
O Livro de San Michele teve a sua primeira edição em 1929, altura em germinava a 2.ª Grande Guerra. Será que Munthe a adivinhou?
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TODOS SOMOS UM DIA O APURADO E SENSÍVEL ENTENDIMENTO DO PENSAMENTO JUVENIL DE FIODOR DOSTOIEVSKY

Psicologia - Frase da semana, 14AGO16: TODOS SOMOS UM DIA O APURADO E SENSÍVEL ENTENDIMENTO DO PENSAMENTO JUVENIL DE FIODOR DOSTOIEVSKY

Mikhail, o irmão de Fiodor
«Para saber mais, é preciso sentir menos, e vice-versa... A natureza, a alma, o amor, e Deus, a gente reconhece-os através do coração, e não através da razão. Se fôssemos espíritos, poderíamos manter-nos naquela região de ideias em que as nossas almas pairam, buscando a solução. Mas nós somos seres nascidos da terra, e só podemos supor na Ideia - não a agarrando por todos os lados ao mesmo tempo. O guia para as nossas inteligências, através da ilusão temporária para o mais profundo âmago da alma, chama-se Razão. Ora bem, a Razão é a capacidade material, enquanto a alma ou o espírito vive sobre os pensamentos que são sussurradas pelo coração. O pensamento nasce na alma. A razão é uma ferramenta, uma máquina, que é conduzida pelo fogo espiritual. Quando a razão humana... penetra no domínio do conhecimento, ele funciona de forma independente do sentimento, e, consequentemente, do coração.» (1) (Fedor Mikhaïlovitch Dostoïevski, aos 16 anos de idade, numa carta para o seu irmão)

Estou cada vez mais seguro desta minha crença, mesmo que não passe disso mesmo - uma crença. Na adolescência, até a mais animal da biologia da nossa espécie nos empurra para a mais matizada e reactiva sensibilidade - e que bom é que assim seja! Esta sabedoria juvenil - não imatura! - é cada vez mais desvalorizada e desprezada pelos grandes decisores da organização escolar pública e da vida social e económica. A sensibilidade, em geral, e as apetências, em particular, dos jovens estão cada vez mais vigiadas, e escalpelizadas por especialistas do comportamento humano, cientes do potencial de influência a que os jovens estão muito facilmente aderentes, e cientes também do que desejam inculcar nas motivações e nos desejos dos jovens, de maneira a atraí-los, enquanto consumidores, a objectos de consumo altamente lucrativos para quem os produz.
Surgiu ontem na imprensa portuguesa a notícia de que o actual Governo vai criar uma comissão para criar o perfil do aluno no 12.º ano... Um produto sofisticado da hiper-exigente e hiper-complexa Economia de Mercado.
Para quando, na verdade, apostar no natural desenvolvimento psico-afectivo das crianças e dos jovens e das suas assombrosas capacidades reflexivas e criativas, sejas as alimentadas pelo que os especialistas desigam por 'pensamento convergente' e 'pensamento divergente'? Por que razões Piaget, Freud e outros tão condicionados ficaram pela fascinante dinâmica cognitiva e afectiva da adolescência?
Tão exigente é para o jovem o balanceamento entre a Razão e o Coração!... Tão importante é o prudente, discreta e sábia palavra; e o congruente exemplo do educador e do pedagogo! Que confiança, respeito e margem de liberdade tem o educador, o professor, o pedagogo, hoje em dia nas nossas sociedades?

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(1) «To know more, one must feel less, and vice versa… Nature, the soul, love, and God, one recognizes through the heart, and not through the reason. Were we spirits, we could dwell in that region of ideas over which our souls hover, seeking the solution. But we are earth-born beings, and can only guess at the Idea — not grasp it by all sides at once. The guide for our intelligences through the temporary illusion into the innermost centre of the soul is called Reason. Now, Reason is a material capacity, while the soul or spirit lives on the thoughts which are whispered by the heart. Thought is born in the soul. Reason is a tool, a machine, which is driven by the spiritual fire. When human reason … penetrates into the domain of knowledge, it works independently of the feeling, and consequently of the heart.»

domingo, julho 31, 2016

Psicologia - Frase da semana, 31JUL16: TANTO VIAJAR! PROCURA DOS OUTROS OU FUGIR DE NÓS MESMOS?

Psicologia - Frase da semana, 31JUL16: TANTO VIAJAR! PROCURA DOS OUTROS OU FUGA DE NÓS MESMOS?

«Tanto aquilo que me escreves como o que oiço dizer de ti fazem-
me ter boas esperanças a teu respeito: não viajas continuamente nem te deixas agitar por constantes deslocações. Um semelhante deambular é indício duma alma doente: eu, de facto, entendo que o primeiro sinal de um espírito bem formado consiste em ser capaz de parar e de coabitar consigo mesmo.» (SÉNECA, Lúcio Aneu - Cartas a Lucílio. 3.ª ed. Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 2007. LIV, 713, [2] p. )

Trazer à partilha uma opinião assim, à entrada (à saída, para outras pessoas) do tradicional mês de férias pode soar a mesquinha censura; mas olhem que não!, olhem que não!... Sendo assim, porque um longo período de férias é um bem adquirido direito dos cidadãos das sociedades essencialmente organizadas à volta da ideia da Economia de Mercado, não acrescentarei mais nada a esta semanal proposta de reflexão, senão o seguinte:
nas viagens que façamos, tomemos atenção aos sinais de Stop - os reais e os que possamos imaginar, sinais que desde há muitos anos, nas passagens de nível dos comboios ou em ambientes, os mais improváveis, nos avisam com mensagens (também reias ou metafóricas) do género: "Pára, escuta e olha.", e "Mesmo no deserto, Stop é para parar."

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domingo, julho 10, 2016

Psicologia - Frase da semana, 10JUL16: AMAR É COMO TIRAR A CARTA DE CONDUÇÃO

Psicologia - Frase da semana, 10JUL16: AMAR É COMO TIRAR A CARTA DE CONDUÇÃO


«If monkeys have taught us anything, it’s that you’ve got to learn how to love before you learn how to live.» (Harry Harlow, This Week, March 3, 1961)
(Se os macacos nos ensinam alguma coisa, é que temos de aprender a amar antes de aprendermos a viver)

«A vida é como andar de bicicleta - explicou um dia Einstein ao filho -, para manteres o equilíbrio tens de continuar a pedalar.» Eu direi: «Amar é como aprender a conduzir, se depois de tirares a carta de condução, não continuares a praticar, vais acabar por esquecer.» Mais, acabamos por ter medo da simples ideia de voltar a pegar num carro!
Dramaticamente, a história pessoal de Harry Harlow será exemplo agudo da desaprendizagem do amor - pelos outros e por si mesmo; absurdamente, depois dos conhecimentos tão preciosos que a sua vida de investigador nos trouxe a todos! Que terá corrido mal?... A falta de equilíbrio? O excesso de velocidade num condutor esquecido dos gestos básicos?...
«The nature of love is about paying attention to the people who matter, about still giving when you are too tired to give. Be a mother who listens, a father who cuddles, a friend who calls back, a helping neighbor, a loving child.» (1)
(A natureza do amor tem a ver com dar atenção às pessoas que verdadeiramente importam; tem a ver com continuar a dar mesmo quando estamos demasiadamente cansados de dar. Ser a mãe que escuta os filhos, ser o pai que pega nos filhos ao colo e lhes dá mimos, ser o amigo que volta a ligar, ser o vizinho colaborador, ser uma criança carinhosa)
 Harlow, ainda a propósito do amor, e de tudo o que dizemos sobre o tema, deixa-nos um aviso, numa carta esctrita a um amigo: «Perhaps one should always be modest when talking about love.» (Talvez tenhamos de ser sempre modestos quando falamos de amor)
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(1)  "The nature of love is about paying attention to the people who matter, about still giving when you are too tired to give. Be a mother who listens, a father who cuddles, a friend who calls back, a helping neighbor, a loving child. That emphasis on love in our everyday lives may be the best of that quiet revolution in psychology, the one that changed the way we think about love and relationship almost without our noticing that had happened. We take for granted now that parents should hug their children, that relationships are worth the time, that taking care of each other is part of the good life. It is such a good foundation that it’s almost astonishing to consider how recent it is. For that foundation under our feet we owe a debt to Harry Harlow and to all the scientists who believed and worked toward a psychology of the heart. At the end, in Harry’s handiwork, there’s nothing sentimental about love, no sunlit clouds and glory notes—it’s a substantial, earthbound connection, grounded in effort, kindness, and decency. Learning to love, Harry liked to say, is really about learning to live. Perhaps everyday affection seems a small facet of love. Perhaps, though, it is the modest, steady responses that see us through day after day, that stretch into a life of close and loving relationships. Or, as Harry Harlow wrote to a friend, “Perhaps one should always be modest when talking about love.”" Deborah Blum, 2002, 2011. Love at Goon Park: Harry Harlow and the Science of Affection, Perseus Publishing,
 

domingo, julho 03, 2016

Psicologia - Frase da semana, 03JUL16: A FILOSOFIA DO CANDEEIRO

Psicologia - Frase da semana, 03JUL16: A FILOSOFIA DO CANDEEIRO


"O candeeiro não é luz, não é electricidade, mas aceita, dentro de
Foi assim que conheci Agostinho da Silva: a trocar mimos com o seu gato.
si, aquilo que ele não é.
» (Agostinho da Silva, recordado por Inácio Fiadeiro, in "In Memoriam de Agostinho da Silva, 100 anos, 150 nomes", 2006. Ed. Zéfiro, p. 190)

O meu querido colega e amigo Inácio Fiadeiro teve o privilégio e conhecer e privar com o Professor Agostinho da Silva, privilégio esse que eu pude também saborear um pouco. O Inácio deixou o seu testemunho no in Memoriam do notável Professor, num pequeno mas muito delicioso texto, construído de forma muito eficaz à volta de umas quantas memórias pontuais. O testemunho do Inácio acaba assim:
«Por último disse: "Já que provavelmente é a última vez que nos vemos aqui, gostava de lhe perguntar se, como acupunctor e psicólogo, sabia como as pessoas podem mudar. Disse que não, e ele respondeu, usando a filosofia do candeeiro: "O candeeiro não é luz, não é electricidade, mas aceita, dentro de si, aquilo que ele não é." Assim nos despedimos, com toda a calma, paz, brilho e força que sempre tinha, sempre estimulando o viver para ser.»
Mais nada tenho a acrescentar.

domingo, junho 26, 2016

Psicologia - Frase da semana, 26JUn16: ESTAMOS A MATAR OS SONHOS DOS NOSSOS FILHOS

Psicologia - Frase da semana, 26JUn16: ESTAMOS A MATAR OS SONHOS DOS NOSSOS FILHOS

«Estou enojado com a educação escolar de hoje, que é uma
fábrica de incultos sem respeito pela memória. [...] Quando era criança, existia a possibilidade de cometer grandes erros. Quem não tiver a liberdade de errar na juventude, nunca se tornará um ser humano completo.» (George Steiner, Visão, n.º 1218, edição 7 a 13/o7/2916, pp.10-12)

Noutro apontamento falarei sobre o que George Steiner diz nesta entrevista sobre a memória.
Por agora quero centrar-me no eco do seu pensamento sobre a educação e o futuro das gerações mais jovens, as que sucessivamente as gerações mais velhas vão educando.
  1. Olhando a educação oficial que grassa pelo Mundo, estou inteiramente de acordo com Steiner: no nosso País, aponto claramente o dedo a decisores oficiais, tais como: Maria de Lurdes Rodrigues, Isabel Alçada, Nuno Crato, mais outras eminências pardas da Educação e do Ensino oficial, e as suas equipas de "sábios" e "especialistas".
  2. É verdade, esquecemo-nos que, afinal... errar é humano!
  3. Há erros das crianças e dos jovens que, oficialmente, se foram tornando intoleráveis nas escolas e que complexos regulamentos e procedimentos administrativos e burocráticos disfarçam por baixo do manto diáfano da "democracia tolerante" e das perversas "sucessivas oportunidades" dadas aos alunos faltosos e suas famílias
  4. A figura dos gabinetes de disciplina em tantas escolas acumula tantas e tantas histórias absurdas e surreais!...
  5. Entretanto, à custa de tantas horas subtraídas aos direitos da família e do descanso pessoal, muitos professores e directores de turma resistem e insistem em autênticas acrobacias pedagógicas para manter o grande sentido de humanidade na relação pessoal com os seus alunos, naquela dimensão que verdadeiramente alimenta os afectos positivos e promove os valores do respeito pelo outro, do companheirismo e da solidariedade.
«Muitos dizem que as utopias são idiotices. Mas, em qualquer caso, serão idiotices vitais. Um professor que não deixa os seus alunos pensar em utopias e errar é um péssimo professor.» (p. 11)
George Steiner não é um oráculo a quem tudo se pergunte e a tudo responda com saber consolidado.
Terá 12000 livros na sua biblioteca, o que me faz pensar que, ou faltam-lhe, mesmo assim, alguns (bons) livros sobre Psicanálise, ou tem-nos lá mas nunca os leu - é que o que ele diz na entrevista sobre a Psicanálise é de um muito lamentável, irritado e estereotipado preconceito. Enfim, é o seu direito a errar; e, como diz o Povo, aprender até morrer.
[texto publicado em 07Jul2016]

segunda-feira, junho 06, 2016

DIA D - DIA TERRÍVEL, DE MORTE E LIBERTAÇÃO

Psicologia - Frase da semana, 06JUN16: DIA D -DIA TERRÍVEL, DE MORTE E LIBERTAÇÃO


"I'm glad I'm here. I'd hate to miss what is probably the biggest
battle that will ever happen to us» (anonimous allied soldier, Voices from D-Day, 2014, p. 75)
«Estou contente por estar aqui. Não ia gostar nada de ter falhado a batalha que é, provavelmente, a maior que alguma vez nos possa acontecer.»
 «A cow stands looking from a few yards away. She seems curious but not excited. There is no wind, so the chute collaps quietly. Unsnap the harness and get the rifle out of its boot. This is done quickly, then the question "Where am I and where is everyone else?» (John Houston, da 101.ª divisão americana aerotransportada, Voices from D-Day, 2014, p. 81-2)
«Uma vaca olha-me ali a alguns metros de distância. Parece curiosa, mas não parece nervosa. Não há vento, de modo que o para-quedas assenta no chão suavemente. Desaperto o arnês e tiro a espingarda da bolsa. Faço isso tudo rapidamente, e depois ponho-me a pergunta: "Onde estou eu e onde estão os outros todos?»

domingo, maio 29, 2016

[E]migração, analfabetismo, saber popular

Psicologia - Frase da semana, 29MAI16:[E]MIGRAÇÃO, ANALFABETISMO, SABER POPULAR
Para tentar salvar o que ainda é possível salvar

"desaparece o analfabetismo, considerado como uma tara e certamente inadequado à vida moderna, mas com ele desaparece também um "saber popular" fundado na tradição oral, tesouro precioso que nada poderá substituir» (Orlando Ribeiro, Mediterrâneo, Ambiente e Tradição, 3.ª edição, FCG, 2011, p. 33)
«Emigra-se para fugir à miséria e não para a perpetuar. A saudade da terra combate-se com as satisfações do êxito: dinheiro, conforto, às vezes ostentação, sempre menos trabalho e maior lucro... [...] Assim se vai criando outra mentalidade: desaparece o analfabetismo, considerado como uma tara e certamente inadequado à vida moderna, mas com ele desaparece também um "saber popular" fundado na tradição oral, tesouro precioso que nada poderá substituir; a telefonia, o cinema e a televisão, ainda mais do que o jornal, que exige esforço de leitura, penetram cada vez mais longe, matraqueando as seduções de um mundo novo e igual. Nos países muçulmanos a coca-cola, favorecida pele interdição ritual das bebidas alcoólicas e por um desenho atraente e decorativo das letras árabes com que se escreve, concorre com o chá ou o café tradicionais. Na estepe africana, o pastor acompanha os rebanhos ouvindo no transistor as melopeias que, em criança, aprendera a entoar; mas, recebendo ao mesmo tempo notícias de todo o mundo, deixa de estar confinado ao horizonte monótono dos seus terrenos de pastagem e da sua vida de guardador de gado.» Assim escreveu Orlando Ribeiro, num texto inicialmente publicado em 1962 e depois fixado em 1985,