domingo, julho 26, 2015

Psicologia - Frase da semana, 26JUL15: NO DIA DOS AVÓS, O "HOMO HOMINI LUPUS"

Psicologia - Frase da semana, 26JUL15: NO DIA DOS AVÓS, O "HOMO HOMINI LUPUS"


William Bouguereau (1825-1905) Dante et Virgile
(Virgilio e Dante conversam enquanto
um homem devora outro homem.)
«O homem é o lobo do homem.»
(anónimo, "Um Mulher em Berlim, Asa, 2014, p. 196)
Qual ironia, qual absurdidade, as Culturas Humanas puseram às costas de um animal profundamente gregário, a maldade que, afinal, é tão intrinsecamente humana. Até nos contos infantis tradicionais, o lobo é o mau da fita.
Parece haver consenso na atribuição da autoria da afirmação: Plautus, em Asinaria, escreve: "Lupus est homo homini, non homo, quom qualis sit non novit".
A fórmula reduzida, se calhar, é bem mais verdadeira - é que Plautus ainda punha uma condição: a da maldade do homem se exercer sobre o Outro que o homem não conhece. A experiência dos homens, a experiência das culturas, a experiência das civilizações tem mostrado que, infelizmente, não é só na condição do Outro desconhecido.
São as culturas dos grupos humanos que produzem a "lobalização" do homem.
Celebra-se  neste dia do calendário, no Brasil e em Portugal, o Dia dos Avós. Embora as raízes pareçam cristãs, quantas celebrações os cristãos penduraram em rituais mais ancestrais que eles? Por isso, quanto às origens, não trago tese...
Penso que a celebração é mais forte no Brasil do que em Portugal. Mais uma vez, desta questão não faço tese.
Oportuno parece-me ser um texto que li há um ou dois dias. É um excerto do livro que já trouxe no apontamento anterior, e do qual também retirei a máxima de Plautus (a forma reduzida). É sobre a maneira de tratar os velhos, que fazem a quase totalidade dos avós; e sobre como alguns deles conseguem ir um pouco além do sofrimento resignado:
SEGUNDA-FEIRA, 4 DE JUNHO DE 1945 [em Berlim, logo após a ocupação pelas tropas russas, no final da Segunda Grande Guerra]
 [...] Cerca das seis da tarde, empreendo a longa caminhada de regresso a casa. As ruas estavam cheias de pequenas caravanas de gente cansada. De onde vêm? Para onde vão? Não sei. A maioria dos grupos dirigia-se para leste. Os veículos assemelhavam-se todos: miseráveis carrinhos de mão sobrecarregados com sacos, caixas, malas de viagem. À frente vai uma mulher, ou o filho mais velho, que com a ajuda de uma corda puxam o carrinho. Atrás seguem crianças ou o avô, que empurram. Em cima do amontoado do carrinho, vejo ainda outros seres humanos: crianças muito pequenas ou pessoas idosas. Estes idosos, sejam homens ou mulheres, têm um aspecto terrível no meio de todos aqueles trastes. Pálidos, decrépitos, já meio mortos, semelhantes a molhos de ossos. Nos povos nómadas, como os lapões ou os índios, os velhos costumavam enforcar-se numa árvore quando já não tinham qualquer préstimo, ou esconder-se na neve para morrer. A civilização cristã carrega-os consigo enquanto respiram. Muitos deles terão de ser enterrados na berma da estrada.
«Honrai os vossos velhos.» De acordo, mas não em fuga sobre carrinhos de mão. Não é o local ou o momento propícios para isso. Pus-me a reflwctir sobre a posição social dos velhos, sobre o valor e a dignidade daqueles que viveram longo tempo. Outrora, eram os senhores da propriedade. Mas no meio das massas sem posses, às quais a maioria pertence nos dias que correm, a velhice não tem qualquer valor. Já não é venerada, mas apenas digna de compaixão. No entanto, é justamente essa posição ameaçada que incita os velhos e atiça a sua vontade de viver. O desertor do nosso prédio contou à viúva que tinha de esconder da sogra tudo o que fosse comestível. Ela rouba sempre que pode e come tudo às escondidas; devora sem quaisquer escrúpulos as rações da filha e do genro. Se lhe dizem alguma coisa, começa a lamentar-se afirmando que querem matá-la à fome, ou até assassiná-la, para herdar o seu apartamento... E, assim, respeitáveis matronas transformam-se em animais, agarrando-se ao que lhes resta de vida.» (pp. 273-4)
Na minha mente, entretanto, tenho hoje os meus alunos que, com evidente carinho, têm feito os seus trabalhos monográficos sobre os seus avôs; e tenho também a Mariana e a Marilene, primas que na distante Bahia vão hoje celebrar especialmente, muito carinhosamente, os avós e os idosos.

domingo, julho 19, 2015

A ordem social é da Humanidade, igual para todos; ou é diferente de uns para os outros?

Psicologia - Frase da semana, 19JUL15: A ORDEM SOCIAL É DA HUMANIDADE, IGUAL PARA TODOS; OU É DIFERENTE DE UNS PARA OS OUTROS?


«A burocracia surge-me como um fenómeno dos bons
tempos. [...] em toda a parte, e em cada abrigo, vai-se estabelecendo uma espécie de ordem, de disciplina. [...] Deve fazer parte da nossa natureza.»
(anónimo, "Um Mulher em Berlim, Asa, 2014, p. 23)
Esta ideia - trazida a escrito por uma senhora alemã, berlinense que testemunhou a chegada das tropas russas à capital alemã em 1945 -, é abundante em ingredientes para ser tomada como verdadeira, correcta e absoluta; mas... mas eu "desconfio" dela, já digo porquê. Para já, por que razões se tornará fácil tomá-la como disse - verdadeira, correcta, absoluta:
1) é escrita por alguém que deseja manter-se anónimo; quer dizer, não persegue a fama, logo, é uma pessoa honesta.

2) o relato é verdadeiro, pertence a um dos momentos mais infelizes da História Moderna, que ocupa ainda hoje uma posição de grande destaque no pensamento das culturas humanas; e é de estudo obrigatório nas escolas de muitos países do Mundo.

3) é escrito por uma mulher, que crenças estereotipadas e preconceituosas põem como mais sincera e verdadeira do que os homens, como se da mãe boa, sincera e frontal se tratasse. Diz o prefácio do livro: «Sem o testemunho da autora, a crónica dos nossos tempos, que tem sido escrita quase exclusivamente por homens, seria parcial e incompleta».

4) é o pensamento de alguém que está olhos nos olhos com a morte; ou seja a tragédia em que participa, fruto de outro pensamento preconceituado e estereotipado, dá-lhe uma aguda consciência do sentido da vida, dos valores e dos sentimentos de humanidade.

5) é o pensamento de alguém cujo relato nos faz deduzir que é uma pessoa boa e culta.

Pois, pode ser que sim... mas eu, como já dei a entender, ainda não estou convencido. Por agora ainda "desconfio" deste pensamento:
- não tenho certezas sobre este assunto, nem alguma vez, até agora, me preocupei em ter. Como, entretanto, fui confrontado com ele (no fundo, um assunto sobre a essência e a especificidade da Natureza Humana) pelo livro da anónima autora, não posso deixar de me interrogar sobre o que, afinal, penso sobre isto; e se, numa aula, um aluno me perguntasse a minha opinião sobre o assunto, o que lhe responderia eu?
Ora, se a autora foi pressionada pelas circunstâncias da vida pessoal com que se confrontava para pensar como veio a deixar escrito, eu também penso ligando o assunto/ a questão/ o tema às circunstâncias actuais da minha vida pessoal, ou melhor, das circunstâncias da vida em sociedade em que, quer queiramos, quer não, os meios de comunicação social, agressivamente, nos trazem, sem que seja possível escapar a essa pressão informativa quase propagandista.
Quais são essas circunstâncias actuais? São a Grécia, a Alemanha; os resgates e os perdões das dívidas; os povos que trabalham, os que são preguiçosos; os que são solidários e os que são implacáveis; e a regras que se cumprem, as que não se cumprem, mas que - dizem uns mais que outros; e todos de maneiras diferentes - nunca deveriam deixar de ser cumpridas.
No fundo, num pensamento ainda muito sincrético, pouco elaborado, pergunto-me, tendo em mente a expressão de ódio e de intransigência dos líderes políticos da Alemanha e outros dirigentes políticos do Norte da Europa em relação aos gregos, se o que está em causa não será a mais abismal incapacidade de tais líderes e dirigentes europeus entenderem que outros grupos humanos pensem de maneira diferente sobre as regras e a ordem social.
Será que a autora anónima, possivelmente tão alemã quanto Merkel e Schäuble, toma a nuvem por Juno e projecta na Humanidade Universal um certo tipo de organização social que se enraizou na genética cultural de apenas um ou alguns poucos povos do Mundo?
E nestes (des)encontros entre o que os outros são e o que fazemos, nas nossas mentes, eles serem nós todos vamos tecendo os novelos do grande (des)concerto do Mundo. No fundo, se eu não me entende com os outros, como posso esperar que os outros se entendem comigo?
A luta da minha circunstância não é, como tantos líderes europeus parecem pensar, entre a ordem e a desordem (ou não-ordem), em sentido absoluto; a mim, parece-me ser entre uma certa ideia de ordem (dominante, a alemã) e outras ordens.(1)

A citação de todo o parágrafo do anónimo autor:
«A burocracia surge-me como um fenómeno dos bons tempos. A verdade é que todas as repartições são dissolvidas logo que começam a cair os primeiros estilhaços de granada. (A propósito, agora está tudo muito calmo. Uma calma inquietante.) Deixámos de ser governados. E, no entanto, em toda a parte, e em cada abrigo, vai-se estabelecendo uma espécie de ordem, de disciplina. Quando a minha casa foi bombardeda, reparei como todos partiam ordeiramente, os que haviam estado soterrados, os feridos e os traumatizados. Também aqui na cave do prédio prevalece a força da ordem, um espírito que dirige, organiza e comanda. Deve fazer parte da nossa natureza. A humanidade já terá funcionado assim na Idade da Pedra. Seres gregários, instinto de sobrevivência da espécie.»

(1) Será esta "força da ordem", como lhe chama a autora, a explicação da espantosa recuperação da sociedade alemã depois das duas Grandes Guerras? Mas, para que isso fosse possível, não terá sido muito importante outra concepção da ordem social e do "gregarismo" entre os Povos, como, por exemplo, os gregos deram mostram quando colaboraram no perdão da grande dívida alemã depois de uma dessas guerras?

domingo, julho 12, 2015

Psicologia - Frase da semana, 12JUL15: QUE TEMPO HISTÓRICO, PLANETÁRIO ESTAMOS MESMO A VIVER?

Psicologia - Frase da semana, 12JUL15: QUE TEMPO HISTÓRICO, PLANETÁRIO ESTAMOS MESMO A VIVER? 


«[Vivemos, hoje em dia] uma espécie de conflito inter-geracional. e esse conflito não é apenas inter-geracional, mas também intra-geracional, interno, porque a parte de nós que foi treinada há, por exemplo, vinte anos atrás deve estar em conflito com a parte de nós que tenta lidar com as dificuldades actuais. [...] nunca houve um momento na história da espécie humana em que tenham acontecido tantas mudanças como no nosso tempo. [...] nunca mais haverá [...]» (Carl Sagan, "As variedades da experiência científica, Uma visão pessoal da procura de Deus", Gradiva, 2007, pp. 199-201)

Dotado de uma notável inteligência, Carl Sagan será, para muitos, um autor a ser lido e respeitado sob condição - é que ele não é crente de nenhum deus; e nem os mais sinceros, piedosos e tolerantes crentes em deuses, especialmente os crentes monoteístas, em última instância, aceitarão o que ele afirme, ou sequer hipotetize - em última instância, nos temas em que a ciência confronte a crença, a força da crença faz tombar o peso da balança, sempre para o mesmo lado. A tolerância de um crente está sempre dependente de a essência do seu deus, qualquer que ele seja, não ser posta em causa - e isto é uma forma de intolerância; de radical intolerância.
Noutra conferência, da série donde fui buscar as afirmações que destaquei, Sagan diz:
«Num universo complexo, numa sociedade que passa por mudanças inéditas, como poderemos encontrar a verdade se não estamos dispostos a questionar tudo e a dar uma oportunidade igual a tudo? Há uma tacanhez de mente a nível mundial que põe em perigo a espécie.» (mesma obra, pág. 223)

No original:
«[...] Consider our past circumstances. Imagine our ancestors, a small, itinerant, nomadic group of hunter-gatherer people. Surely there was change in their lives. The last ice age must have been quite a challenge some ten to twenty thousand years ago. There must have been droughts and new animals suddenly migrating into their area. Of course there is change. But by and large the change is extraordinarily slow. The same traditions for chipping stone to make spears and arrowheads, for example, continues in the East African paleoanthropological sites for tens or hundreds of thousands of years.
In such a society, the external change was slow compared to the human generation time. Back then traditional wisdom, parental prescriptions, were perfectly valid and appropriate for generations. Children growing up of course paid the closest attention to these traditions, because they represented a kind of elixir of the wisdom of previous generations; it was constantly tested, and it constantly worked. It is not for nothing that ancestors were venerated. They were heroes to subsequent generations, because they passed on wisdom that could preserve lives and save them.
Now compare that with another reality, one in which the external changes, social or biological or climatic or whatever we wish, are rapid compared to a human generation time. Then parental wisdom may not be relevant to present circumstances. Then what we ourselves were taught and learned as youngsters may have dubious relevance to the circumstances of the day. Then there is a kind of intergenerational conflict, and that conflict is not restricted to intergenerational but is also intragenerational, internally, because the part of us that was trained twenty years ago, let's say, must be in some conflict with the part of us that is trying to deal with the difficulties of today. So I claim that there are very different ways of thinking for these two circumstances: when change is slow compared to a generation time and when change is fast compared to a generation time. There are different survival strategies. And I would also like to suggest that there has never been a moment in the history of the human species in which so much change has happened as in our time. In fact, it can be argued that in many respects there never will be a time when the change can be so rapid as it has been in our generation.
For example, consider transportation and communication. Just a couple of centuries ago, the fastest practicable means of transportation was horseback. Well, now it is essentially the intercontinental ballistic missile. That is an improvement from tens of miles per hour to tens of miles per second in velocity. It's a very substantial increment. In communication a few centuries ago, except for rarely used semaphore and smoke-signaling systems, the speed of communication was again the speed of the horse. Today the speed of communication is the speed of light, faster than which nothing can go. And that represents a change from tens of miles per hour to 186,000 miles per second. And never will there be any improvement on that velocity.
Now, it's a very different world if the fastest that a message can get to us goes from the speed of a horse or a caravel to the speed of light. The speed of light means that we can talk—in essentially real time—to anybody on the Earth or even on the Moon. [...]» (Sagan, Carl. The varieties of scientific experience. A Personal View of the Search for God. The Penguin Press. New York. 2006)
And...
 «In a complex universe, in a society undergoing unprecedented change, how can we find the truth if we are not willing to question everything and to give a fair hearing to everything? There is a worldwide closedmindedness that imperils the species.»

domingo, julho 05, 2015

Psicologia - Frase da semana, 05JUL15: SIM, É ISTO A ESSÊNCIA DO PSIQUISMO

Psicologia - Frase da semana, 05JUL15: SIM, É ISTO A ESSÊNCIA DO PSIQUISMO 



«[...] em que consiste o equilíbrio de um psiquismo qualquer,individual ou colectivo?
Seria este o aspecto de Pessoa na altura em que
escreveu a longa, rigorosa e contundente réplica.

Essencialmente no grau da sua atenção ao mundo exterior; e quanto mais ele é atento ao mundo exterior, tanto maior seu equilíbrio é.
E em que consiste a originalidade? Em ter ideias inteiramente próprias individuais; e "inteiramente individuais e próprias" quer dizer inteiramente subjectivas. Como, porém, o espírito elabora impressões vindas do exterior, a originalidade será tanto maior quanto maior for o número de impressões do exterior que o espírito é capaz de acolher e elaborar para a originalidade; isto é, quanto maior for a sua atenção ao mundo exterior; quer dizer, pois, quanto maior for o seu equilíbrio. Portanto, originalidade verdadeira e perfeita envolve equilíbrio, nunca é senão originalidade equilibrada.»
Fernando Pessoa, Correspondência, 1905-1922. Assírio  Alvim, 1999, pp.47-48.

Fernando Pessoa tem 24 anos quando escreve este notável pensamento; numa réplica a Adolfo Coelho, acerca do que este comentou sobre a "Renascença Portuguesa", movimento literário que tão empenhadamente Pessoa defendia para "as poesias características dos nossos novíssimos poetas".
Num longo texto que agora escrevesse - e não vou fazê-lo!, exploraria as seguintes vertentes:
  1. A arrepiante clareza de pensamento acerca da maneira como o ser humano conhece e cria o bem-estar.
  2. A tragédia que é a organização do ensino, da educação oficial das crianças e dos jovens, praticamente em todo o Mundo.
  3. O valor dos pensamentos juvenis, de que tantas vezes os próprios jovens se envergonham. Será esta vertente uma consequência da imediatamente anterior.
  4. O "mudo exterior", que é feito de pessoas, coisas e ambientes.

domingo, junho 28, 2015

Psicologia - Frase da semana, 28JUN15: O QUE É A EUROPA?, A REBOQUE DOS ACONTECIMENTOS ACTUAIS

Psicologia - Frase da semana, 28JUN15: O QUE É A EUROPA?, A REBOQUE DOS ACONTECIMENTOS ACTUAIS (influenciar a percepção individual da informação, contra-informação e desinformação que os meios de comunicação social veiculam) 


“Na velha Europa, começamos a ver, hoje, na América de há vinte anos atrás, a nossa própria imagem, a imagem do nosso próprio destino e, porventura ou desgraça, a imagem do destino do Planeta.” P. Manuel Antunes, em 20 de Abril de 1969.

Continua assim o autor:
A americanização do Antigo Continente inscreve-se já, largamente, na ordem dos factos.
E não é apenas na organização económica, na gestão das empresas e na mitologia do consumo, é também na tecnocracia das human relations e das public relations.
Assiste-se, em nossos dias, a um fenómeno análogo àquele que se verificou há mais de dois mil anos na área cultural do Mediterrâneo. «A Grécia vencida venceu, por sua vez, o seu fero vencedor», na frase célebre de Horácio. Mas o que o autor da Epistola ad Pisones não diz, decerto porque não chegou a presenciá-lo, é que o antigo vencido-vencedor terminou finalmente vencido, imitando certos costumes e revestindo uma certa mentalidade do povo dominador, ao tempo, pela superioridadeda sua técnica, da sua política, da sua administração e até, a partir de dado momento, da sua cultura.
Somos hoje, com relação ao novo Império Romano da outra margem do Atlântico, uma velha Grécia. Para bem e para mal. Vencidos-vencedores, começamos a ser submergidos por muitas coisas - umas desejáveis, indesejáveis outras - que lá tiveram o seu ponto de origem ou, quando menos, de desenvolvimento. O homo mechanicus, essa peça-mestra da «multidão solitária» pertence a esse número.
A seguir o P. Manuel Antunes explica o que é a "multidão solitária"
"Que é a «multidão solitária»? Simplificando muito e combinando as análises e as expressões de David Riesman e de Herbert Marcuse, diremos que a multidão solitária é um conglomerado ou um conjunto de homens unidimensionais numa sociedade multidimensional; de homens funções de uma rede complexíssima cujo valor é medido exclusivamente pela competência técnica e pela capacidade de manipular tanto as coisas como os seus semelhantes; de homens hetero-determinados, como lhes chama David Riesman, cheio de substância teórica e de substância empírica e de nada mais.
É contra o universo serial da «multidão solitária», ou contra o pavor da sua implantação, que procuram reagir, que vão procurando reagir, na América e no Velho Continente, grupos cada vez mais numerosos, sobretudo de jovens.
Portadores de carências afectivas profundas, esses jovens tentam preenchê-las, como se diz, pelos meios de bordo. Conhecemos alguns que recorrem à mecânica, em âmbitos restritos, do erotismo colectivo mais desenfreado. Conhecemos outros que, sem entrarem por tais excessos, procuram em certas «afinidades electivas» e sentimentais mais ou menos sãs, estabelecidas em pequenos grupos, a dimensão de humanidade que não encontram nas próprias famílias e que o mundo social mais vasto também não lhes oferece. Conhecemos ainda outros que recorrem aos paraísos artificiais da droga, para se evadirem de um universo «concentracionário» ou «contestacionário» que nem numa nem noutra forma os satisfazem.
Numa palavra, instáveis, buscam no limitado das relações e no seu estreitamento, até a uma forte intimidade colectiva e repartida, a estabilidade que, dia após dia, sentem fugir-lhes debaixo dos pés.
Parece difícil aceitar que todos esses caminhos de fuga ao peso da «multidão solitária» sejam realmente, e a longo prazo, caminhos de liberdade ou de libertação. Mas não haverá outros? Decerto que sim. O que importa é procurá-los e segui-los. Para isso existe ou deve existir a legião dos pais que o saibam ser, dos educadores desinteressados e dos psicólogos equilibrados.
Na espantosa mutação de que estamos a ser, a um tempo, espectadores e agentes, seria profundamente de lamentar que se salvassem as coisas e se perdessem os homens."

domingo, junho 14, 2015

O Texto Poético a explicar o que determina o Desenvolvimento Humano

Psicologia - Frase da semana, 14JUN15: UM FERNANDO ENCANTADO COM OUTROS 2 FERNANDOS


O Fernando encantado é o autor deste pequenino apontamento; o Fernando motivo do encontro dos 3 Fernandos é o Martins, que será depois o St.º António de Lisboa; o Fernando mediador é o padre Fernando Félix Lopes, que escreveu um muito belo livro sobre Santo António de Lisboa, o Doutor Evangélico.


“Dizem que a infância é a idade em que progressivamente, dia a dia, acordam as heranças que cada qual traz no sangue, e em que o ambiente, amolgando-as, vai afeiçoando a seu modo as almas tenras...” P. Fernando Félix Lopes

Não conheço outro texto que, com tão poucas palavras e de forma tão poética diga a toda a gente como cada um cresce, se desenvolve e se torna pessoa consciente da sua personalidade única e diversa! Continua assim padre Fernando:
«... Com tais heranças e amolgões compõem as crianças os sonhos de fantasias em que se lhes dealba o futuro.
A teoria até certo ponto bate certa. O sangue e o meio onde o homem cresce, não lhe determinam a vida por inteiro, pois há sempre pelo menos o imprevisto individual que pode interferir e desviar os determinismos das heranças e as influências do meio; todavia são sempre das forças que mais pesam no construir do homem.»
(p. FFL, "S. António de Lisboa doutor Evangélico", 2.ª edição, 1954, p. 26)
Estais vendo, queridos alunos, a expressão simples, lapidar, dos nossos mais importantes temas das aulas (a Genética; a influência Cultura e a Educação; e o Indivíduo, com as condições do seu Sistema Nervoso e dos seus Processos Mentais)

domingo, junho 07, 2015

Psicologia - Frase da semana, 07JUN15: OS TRABALHOS MONOGRÁFICOS, O CAPÍTULO DOS AGRADECIMENTOS E A EXPRESSÃO DA GRATIDÃO.

Psicologia - Frase da semana, 07JUN15: OS TRABALHOS MONOGRÁFICOS, O CAPÍTULO DOS AGRADECIMENTOS E A EXPRESSÃO DA GRATIDÃO.


Este texto é especialmente dedicado a uma querida aluna que muito, muito recentemente, me dizia que não incluiria um capítulo de agradecimentos no seu trabalho monográfico, porque não tinha ninguém  a quem agradecer.


“A Gratidão não é apenas a maior das virtudes, é também a mãe delas todas.” Marcus Tullius Cicero

“Gratitude is not only the greatest of virtues, but the parent of all others."

A escritora Pearl Buck, quando um dos seus filhos lhe perguntou se, mesmo que não sentisse arrependimento ou sentimentos de culpa, deveria ou não pedir desculpa, ela respondeu-lhe que sim; se muitas vezes o dissesse,  aos poucos começara a sentir, muito sinceramente, o que ao princípio apenas fazia por dever ou obrigação moral; e que isso fazia bem na relação das pessoas umas com as outras.
Apetece-me plagiar a ideia da escritora a propósito da gratidão.
Hoje de manhã, saía eu à pressa de casa para ir para a escola ajudar a arrumar as tralhas e a limpar o espaço da festa de ontem dos antigos alunos, cruzei-me com um casal de velhos vizinhos. O senhor levava pela mão a esposa, senhora a quem o Alzheimer vai levando a lucidez e o reconhecimento das pessoas suas amigas.  À aproximação recíproca logo o senhor me chamou a atenção, com uma piscadela de olho e um olhar especial, em direcção à sua companheira de tantos anos, para o estado mental da minha antiga vizinha.
A senhora reconheceu-me e, como sói dizer-se [Ui! Que expressão tão antiga, que agora raramente se usa,,,], demos dois largos e muitos saborosos dedos de conversa, imagine-se, sobre cães e gatos, os grandes animais de companhia nos lares de tanta gente.
Nem o mais leve sinal da terrível doença da boa senhora! Prolonguei o que pude a conversa - estava a ser tão agradável! -, até porque tive a sensação de que o senhor por momentos se esqueceu do estado mental da sua querida esposa; e seguramente faria bem à ternurenta senhora.
Ali ficámos até que a certa altura - repito, passado um bom par de minutos - o meu velho vizinho, de idade igual à minha mãe, estendendo-me a mão para o tradicional cumprimento, me diz "Aqui os velhotes já lhe tomaram muito tempo, são horas do senhor ir à sua  vida". A seguir despedi-me da senhora que me olhou bem nos olhos e com um sorriso largo, muito carinhoso, me disse "Obrigado por este bocadinho de tempo tão agradável!" Exactamente assim!
Entrei no metropolitano e, na cancela, o sistema de controlo avisou-me que eu teria de fazer o recarregamento do cartão, o que me fez perder a composição que estava a chegar e obrigou-me a esperar pela seguinte - mais 8 minutos de atraso para chegar onde devia ter chegado há muito!...
Pois bem, em vez de perder, ganhei. Aquela "perda" de tempo deu-me oportunidade de me reencontrar com um "velho" aluno, e logo lhe contei o encontro de momentos antes. Ele disse-me "O stor faz bem a toda a gente, anda sempre nisso". "Estás enganado - respondi-lhe eu -, eu é que deveria ter agradecido à senhora e ao senhor, eles é que me fizeram bem, mais uma vez me mostraram que a gratidão é rápida, custa pouco e sabe bem; se a treinarmos, torna-se fácil e torna-se poderosa - faz as pessoas sentirem-se bem e melhora as relações sociais. Uma senhora com Alzheimer... e deu-me uma lição de vida! Enquanto a doença não levar da senhora o que ela ainda tem de lucidez e bondade será sempre agradável estar ao pé dela."
A composição do metro parou nos Olivais. Demos aquele abraço, eu saí e ele continuou - nem fiquei a saber para onde ele ia; também não interessava. Antes da porta da carruagem fechar, ele levantou a voz e gritou-me "Obrigado por este pedacinho de tempo tão agradável!" . Voltei-me para trás e acenei-lhe à pressa como pude.  É verdade, eu fiquei bem, ele foi bem à sua vida - quer dizer, o pedacinho de gratidão que a minha querida vizinha me deixou nas mãos logo começou a espalhar a sua tão grande riqueza afectiva, a sua tão grande carga de humanidade.