segunda-feira, abril 11, 2016

O QUE DEFINE UMA ESCOLA?

Psicologia - Frase da semana, 10ABR16: O QUE DEFINE UMA ESCOLA?


"A Educação é uma forma de viver hoje, não é a preparação para
se viver amanhã."

"Education is a process of living and not a preparation for future living.John Dewey

O seguinte texto é de David Gamberg, e é especialmente recomendado por Sir Ken Robinson.
Pessoalmente, gosto muito do texto.
Words matter. They matter in all aspects of life, especially when we are talking about how to define a school. Of course, brick and mortar are only a small part of the story. The academic and emotional climate, both inside and outside the physical space, gets us closer to an understanding of what forms the basis of any school. Throughout our country, we have many opinions, positions, and reform efforts competing to control the narrative not only of what defines a school, but also, more significantly, of what it means to be educated in 2016 and beyond.
My daily travels in the schoolhouse as a superintendent give me an inside look at what constitutes a school. I am fortunate that my professional work over the last 30 years has put me inside dozens of schools and in contact with hundreds of educators, scholars, and support staff. I have also had the good fortune to be in the company of thousands of children and their families. No, I do not consider myself an expert on all things that define a school. I do, however, have a vested interest in seeing that the schools of today and those that are created in the future are shaped with the care and respect they so richly deserve.
The call to have children as young as 8 or 9 years old "college- and career-ready" does not create the same narrative as building a sound foundation in childhood filled with play and creativity. Among the many other more important ways to engage the hearts and minds of our youngest students, we must promote the childhood experience in all its wonder.
Schools have always existed as an expression of how a given community values its children, and how a society looks at the future—a covenant handed down from one generation to the next. The problems that beset our social, political, and economic well-being as a nation are, in fact, not born at the doorsteps of our schools. They are certainly not derived exclusively from the province of our public schools. The crumbling roads, bridges, and tunnels of the infrastructure that is the lifeblood of a thriving economy demand our attention, as does the scourge of substance abuse wreaking havoc on families of every demographic group.
Local neighborhood and even family issues that confront all generations, from toddlers to senior citizens, are ever-present in our daily lives. If schools do play a part in shaping our future—and I believe they do—how we articulate the issues matters as much as how we marshal the will and resources to meet these challenges.
The calls to shutter schools, to replace and dismantle them, are being offered by those with a variety of other interests. These are not the solutions we should accept. They create a hostile dialogue that reflects the worst in our democratic discourse. In the last 10 years, we have witnessed a rapid decline in civility, an unfettered belligerent approach to the questions central to the teaching and learning process.
Words matter in how we discuss our schools and the issues that confront all communities. How this conversation occurs has changed in recent decades across the entire country, from small rural towns to large suburban and urban communities. Technology affords us wonderful ways to gather data points that could promote change, but it may still fail to foster a deliberative and thoughtful dialogue regarding the seeds of our problems. The most basic elements of our humanity must not get lost in the pursuit of a faster, data-driven decisionmaking process. Such is a key element of our current fascination with a punitive, high-stakes testing environment designed to sort and select students and teachers.
So, what truly defines a school? For me, the exchange between child and adult is at the heart of it. That exchange may be subtle or vigorous—not rigorous. Rigor, which shares roots with the Latin rigor mortis, implies severity, rigidity, and stiffness—all connotations that restrict the learner and the learning process—while vigor implies energy and dynamism.
Yes, words matter. The best learning occurs when both teacher and student are in pursuit of a deeper understanding. It is a quest that is based on love, one that is filled with authentic, joyful, challenging, and impactful experiences. A school is a place of respect and wonder.
The search to create, discover, reveal, and share is an unending journey that occurs in the best of our schools: the child immersed in beautiful poetry, the student acquiring the skill of using a watercolor-paint brush, the rendering of a museum-quality display of artifacts. Scientific experiments, research papers, debates, and discussions centered on classic literature are the means through which students explore and discover ideas. Unpacking the essential elements of contemporary issues and having students learn to take responsibility for their actions coalesce to teach valuable lessons that extend beyond the school walls. Students who present their learning before a panel of adjudicators and get so immersed that they lose track of time are then at their optimal disposition to learn. No reward or punishment necessary.
All members of a community, from custodians to teachers and principals to kindergartners, are the learners of a true school. A climate of fear and hostility, or a tone of acrimony and mistrust, will yield neither a school that serves the needs of children nor the globally competitive country that some imagine will arrive when we replace the old with the new. Schools of the future—no matter their size, technological sophistication, or cost-effectiveness—should always begin with the best qualities of our humanity.
We must choose our words carefully in this fight. We must strive to retain the core values that define a school as a place that upholds the tenets of our democracy and cares about people, rather than a place that efficiently manages the system or pits stakeholders against one another.
"Education," in the words of John Dewey, "is a process of living and not a preparation for future living."

domingo, março 27, 2016

O MAL E O REMÉDIO ESTÃO EM NÓS.

Psicologia - Frase da semana, 27MAR16: O MAL E O REMÉDIO ESTÃO EM NÓS.


"Perdeu-se o senso da solidariedade, o senso cívico, que não deve ser confundido com a caridade. É um tempo obscuro, mas chegará, com certeza, outra geração mais autêntica."
“José Saramago: ‘El mundo se está quedando ciego’”, La Verdad, Murcia, 15 de março de 1994 [Entrevista a Gontzal Díez]. 

Saramago é um, eu diria, um compulsivo pessimista
«Eu sou muito pessimista. Melhor dizendo, o que eu sou é pessimista. Sou dos que dizem “este copo está meio vazio” e não “este copo está cheio pela metade”. A gente tem que viver e encontrar no fundo desse pessimismo uma força que nos mantenha vivos e de pé.» “Yo no entiendo…”, El Mercurio, Santiago do Chile, 20 de novembro de 1994. 
Talvez a escrita seja, como a Psicanálise gosta de dizer, uma forma de Saramago sublimar o opressivo pessimismo.
A celebração da Páscoa, ritualmente, ano após ano, será, no fundo, o renovado compromisso, nem é apenas contra o pessimismo, mas sobretudo contra a derrota da solidariedade, o senso cívico e a caridade. As palavras do Papa Francisco na Via-Sacra da sexta-feira passada vai nesse sentido.
Quanto ao nosso escritor, foi assim que ele falou ao jornalista:
O mal e o remédio estão em nós. A própria espécie humana, que agora nos indigna, se indignou antes e se indignará amanhã. Agora vivemos um tempo em que o egoísmo pessoal tapa todos os horizontes. Perdeu-se o senso da solidariedade, o senso cívico, que não deve ser confundido com a caridade. É um tempo obscuro, mas chegará, com certeza, outra geração mais autêntica. Talvez o homem não tenha remédio, não progredimos muito em bondade em milhares de anos na Terra. Talvez estejamos percorrendo um longo e interminável caminho que nos leva ao ser humano. Talvez, não sei onde nem quando, chegaremos a ser aquilo que temos de ser. Quando a metade do mundo morre de fome e a outra metade não faz nada… algo não funciona. Quem sabe um dia! “José Saramago: ‘El mundo se está quedando ciego’”, La Verdad, Murcia, 15 de março de 1994 [Entrevista a Gontzal Díez].

domingo, março 13, 2016

Psicologia - Frase da semana, 13MAR16: SER E NÃO SER, EIS A QUESTÃO.

Psicologia - Frase da semana, 13MAR16: SER E NÃO SER, EIS A QUESTÃO.


«Espera e confia / Põe tudo em cada nada. / Sê tu mesmo todo o
Amadeu Ferreira (o que olha de frente),
com António Tiza, em Bragança (1970)
dia. / E terás encurtado a caminhada / Que tão longe parecia.
» 
(Amadeu Ferreira, 21 de Junho de 1972)

1972. Amadeu Ferreira aproxima-se do final da formação seminarista, iniciada em Vinhais e continuada em Bragança, um caminho de onze anos iniciado com a sensação de uma ruptura brutal com a infância.
«Ainda não tinha ido para o seminário e já tinha saudades de ficar em Sendim, de andar por ali com os miúdos da minha idade, na brincadeira, de andar pelos campos, de ir com os meus pais, porque eu tinha uma ligação muito forte à terra, ao campo. Conhecia aquele mundo, aquele era o meu mundo. Tinha uma ligação muito forte com os meus irmãos, quer com o meu irmão mais velho, o Abel, que na altura já tinha 14 anos e trabalhava no campo, como um homem, quer com o meu irmão Manuel, três anos e mei mais novo. Os três andávamos sempre juntos. O Carlos tinha acabado de nascer nesse ano, em Fevereiro." (in O Fio das Lembranças, Biografia de Amadeu Ferreira, de Teresa Martins Marques, Âncora Editora, 2015, p. 124)
Mas - o miúdo Amadeu sabe-o claramente - o seminário era a grande (única!) oportunidade de formação escolar naquele mundo tão isolado e tão pobre.
Em 1972, com 22 anos, a mente de Amadeu Ferreira processa em pensamentos de grande turbulência tudo o que vive, observa e sente. Como cantou o poeta, ele via, ouvia e lia, não podia ignorar. A rebeldia contra o conservadorismo do pensamento seminarista põe-no cada vez mais perto da expulsão do seminário - ele, o melhor aluno do seminário de Bragança. Lê obsessivamente; e escreve, escreve, escreve. Lê, interpreta e reeinterpreta.
Assim fez com a ode de Ricardo Reis
Para ser grande, sê inteiro: nada
        Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
        No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
        Brilha, porque alta vive.
Assim fez, também notavelmente, com Shakespeare.
«De facto nunca, desde então, aceitei o dito de Shakespeare "Ser ou não ser eis a questão", substituindo-o por "Ser e não ser eis a questão". Na mesma linha, desde cedo rejeitei o chamado princípio da não contradição, aceitando que ser e não ser, ao mesmo tempo, pode ser.» (in O Fio das Lembranças, Biografia de Amadeu Ferreira, de Teresa Martins Marques, Âncora Editora, 2015, p. 254)
Com notável argúcia, rompe com a tradicional dicotomia filosófica reinante, mergulha, entre outros, nos escritos dos autores fenomenologistas, e reescreve Shakespeare como certamente Jacques Lacan bem gostaria de ter feito: qual ovo de Colombo, transforma o disjuntivo dilema [ou] do ser  na copulativa [e] integralidade humana - a única que verdadeiramente faz sentido - somo o que somos e o seu contrário. É nessa estrutural inerência humana que nos fazemos na dimensão individual, social, política, criativa; submissa ou rebelde; conservadora ou desafiando rupturas; solidariamente ou egoisticamente. Não há outro caminho - apenas o da opção pessoal, não o do destino ou do fatalismo.

sábado, março 05, 2016

Psicologia - Frase da semana, 06MAR16: PUXAR PELA IMAGINAÇÃO... É MESMO!

Psicologia - Frase da semana, 06MAR16: PUXAR PELA IMAGINAÇÃO... É MESMO!


«Nenhuma palavra é poética, o que faz que a palavra se transforme em palavra poética é a outra palavra, a que estava antes, a que vem depois.» (José Saramago, in "A esquerda não faz a mínima ideia do mundo", Veintitrés, Buenos Aires, 7 de Fevereiro de 2002, entrevista de Eduardo Mazo)


Tantas vezes que desafio, desafio, e desafio; insisto, insisto, e insisto com os meus alunos para que ousem escrever!... Se deixem escrever!... Que deixem que a palavra seguinte apareça depois da anterior. Uma vez... duas vezes... três vezes... Os alunos - a generalidade das pessoas! - pensam que não são capazes; que não vale a pena. Têm na cabeça que ou se é escritor ou não é. E que é preciso sempre escrever textos grandes; como se fossem grandes caminhadas - e mesmo que a gente diga que também essas começam por um pequeno passo, e depois outro, e depois outro. Às vezes o passeio de uma ponta à outra da minha rua tem tantos motivos para olhar, pensar e escrever!... E são mesmo só duas ou três palavras! O que é preciso é mesmo começar a escrevê-las!
«[A imaginação] pode surpreender-nos, claro que sim. Todos nós que escrevemos sabemos que isso acontece e é o melhor que nos pode acontecer. É quando nos surpreendemos a nós mesmos, quando uma coisa que parecia não estarmos a pensar nela quatro palavras antes e que, quatro palavras depois, aparece. Creio que há um processo que leva alguns a dizer com exagero que o livro se escreve a si mesmo. É claro que não, precisa das mãos, da cabeça, mas há qualquer coisa… que no fundo as palavras se procuram umas às outras. Nenhuma palavra é poética, o que faz que a palavra se transforme em palavra poética é a outra palavra, a que estava antes, a que vem depois.»

sábado, fevereiro 27, 2016

QUANTO VALE UM ABRAÇO?

Psicologia - Frase da semana, 28FEV16: QUANTO VALE UM ABRAÇO?

«Quando se está sozinho, um abraço tem mais significado do que alguém possa imaginar, porque essa manifestação repõe a dignidade humana de que tanto se carece.» (Eva Mozes Kor, sobrevivente de Auschwitz. In "Auschwitz, os nazis e a solução final", Laurence Rees, Círculo de Leitores, 2005, p. 355)


http://triviana.com/fam/sswedding/SarahGrandpa.jpg
«A primeira vez que Eva se apercebeu de que o seu sofrimento estaria prestes a chegar ao fim foi quando uma das mulheres do barracão começou a gritar: "Estamos livres! Estamos livres!" Eva correu para a porta, mas não foi capaz de ver nada por entre a neve. Só decorridos alguns minutos é que conseguiu descortinar os soldados do Exército Vermelho que vestiam blusões brancos de camuflagem:

"Corremos para eles, que nos abraçaram, oferecendo-nos chocolates e bolachas. Quando se está sozinho, um abraço tem mais significado do que alguém possa imaginar, porque essa manifestação repõe a dignidade humana de que tanto se carece. Não só estávamos esfaimados, como ansiávamos por generosidade humana, e as tropas do Exército Vermelho proporcionaram-nos parte disso. Na verdade, uma das coisas que mais falta me fez depois da guerra, quando regressámos a nossas casas, o que eu desejava
desesperadamente eram os abraços e os beijos que me foram dados. Portanto, quando faço uma prelecção para estudantes universitários, costumo dizer-lhes: "Quando regressarem a casa esta tarde, por favor, dêem um abraço e um beijo mais do que é costume aos vossos pais por todos nós, as crianças que sobreviveram aos campos de concentração e que não tinham que pudessem abraçar e beijar."»

domingo, fevereiro 21, 2016

FRASES PARA OS PROFESSORES E OS PAIS PENSAREM - I

Psicologia - Frase da semana, 21FEV16: FRASES PARA OS PROFESSORES E OS PAIS PENSAREM - I

E não tirem os governantes dos países o cavalinho da chuva! Eles deverão estar na primeira linha dos que pensam seriamente sobre estas coisas!...


«Quando uma flor não desabrocha, nós mexemos no espaço à sua volta, não na flor.» (Alexander den Heijer)

"When a flower doesn't bloom, you fix the environment in which it grows, not the flower."

domingo, fevereiro 14, 2016

EM DIA DE NAMORADOS, VOLTAR A SABER DIZER NÃO

Psicologia - Frase da semana, 14FEV16: EM DIA DE NAMORADOS, VOLTAR A SABER DIZER NÃO


«O pior que nos pode acontecer é resignarmo-nos a não saber. É preciso aprender a voltar a dizer não, e a interrogarmo-nos porquê, para quê e para quem. Se encontrássemos respostas para estas perguntas, se calhar entenderíamos o mundo.» («José Saramago, consciência de Lanzarote»,  Lancelot. Lanzarote, n.º 896, 22 de Setembro de 2000)

Não sei se Saramago conhecia os trabalhos de René Spitz, um dos autores mais consagrados no campo da Psicanálise e do estudo do Desenvolvimento Infantil.
Para Spitz, o bom/ normal/ desejado desenvolvimento infantil tem três marcas notáveis logo nos primeiros tempos de vida - até aos dois anos. São marcos do desenvolvimento que estão inscritos na matriz genética da condição psíquica e da condição social do seu humano.
A resposta/ reacção do não, precisamente por volta dos dois anos, é o terceiro desses marcos fundamentais. O bebé claramente passa a dizer não, até às pessoas de quem gosta muito, que aprendeu a amar acima de tudo. É um sinal de autonomia do pensamento e da vontade; e da confiança no Outro - sim, da confiança no Outro.
Lamentavelmente, todo o processo educativo subsequente - com especial rigor na culturas que atribuem uma sacrossanta importância à escola, tal como a conhecemos na nossa sociedade - é um processo de domesticação da criança, de anulação do advento de essa tão saudável marca do desenvolvimento humano.
Por que digo eu "Não sei se Saramago conhecia os trabalhos de René Spitz"? É porque Saramago diz «aprender a voltar a dizer não». Ele sabe, por estudo, reflexão ou intuição, que todos nós já soubemos, um dia, dizer não.
No livro "José Saramago e as suas palavras", edição e selecção de Fernando Gómez Aguilera, entre as páginas 399 e 401, coleccionam-se 12 afirmações de Saramago sobre o não. Vale bem a pena lê-las todas. Por agora, só mais uma:
«A palavra de que eu gosto mais é não. Chega sempre um momento na nossa vida em que é necessário dizer não. O não é a única coisa efectivamente transformadora, que nega o status quo. Aquilo que é tende sempre a instalar-se, a beneficiar injustamente de um estatuto de autoridade. É o momento em que é necessário dizer não. A fatalidade do não - ou a nossa própria fatalidade - é que não há que nenhum não que não se converta em sim. Ele é absorvido e temos que viver mais um tempo com o sim.» 
Ah, pois, o Dia dos Namorados. Pois é, comecei por aí.
É que são cada vez mais preocupantes - não obstante os avisos, a informação disponível e as campanhas de prevenção - os sinais de comportamentos violentos e doentios nas relações de namoro. E por que fracassam a informação, os avisos e a prevenção? Porque no nihilismo das sociedades materialistas e consumistas que comodamente alimentamos ganha força e espaço o que Hannah Arendt consagrou na expressão "banalização do mal". Pior! Certos tipos de mal estão a "ganhar estilo" entre os jovens, que exibem tais "estilos" por todo o lado - e não apenas nas redes sociais da Internet. E porquê? Porque a Educação está a falhar seriamente.
Um estudo actual, quentinho, quentinho, sobre o tema pode ser encontrado a partir daqui.

domingo, fevereiro 07, 2016

MALDADE HUMANA, É MESMO ÁGUA QUE NUNCA BEBEREI?

Psicologia - Frase da semana, 07FEV16: MALDADE HUMANA, É MESMO ÁGUA QUE NUNCA BEBEREI? (1)


«Só há uma coisa de que tenho a certeza - ninguém se conhece a si-próprio.» (Toivi Blatt, sobrevivente de Sobibór)

Sobibór não era um "simples" campo de concentração nazi, durante a Segunda Guerra Mundial; era mesmo um campo de extermínio - objectivo: matar.
«Talvez, e acima de tudo, Auschwitz e a Solução Final nazi demonstrem o poder das circunstâncias para influenciar comportamentos que atingem extremos inimagináveis. Trata-se de um ponto de vista confirmado por um dos sobreviventes mais firmes e corajosos dos campos da morte, Toivi Blatt, que foi forçado pelos nazis a trabalhar em Sobibór e depois arriscou a vida ao fugir. (...) "Como é que são capazes de fazer uma coisa destas?", perguntou uma mulher polaca de meia-idade num tom autoritário enquanto Toivi Blatt lhe cortava o cabelo. "Eles também vão acabar por te matar. A tua hora há-de chegar!" Ele não lhe deu resposta, mas ainda se lembra das palavras dela "como se fossem uma maldição". (...) "[Eu tinha] quinze anos e havia pessoas com experiência de adultos em meu redor que não faziam nada para contrariar essa situação. As pessoas perguntavam-me: 'O que aprendeste?', e penso que só há uma coisa de que tenho a certeza - ninguém se conhece a si próprio. Encontramos uma pessoa simpática na rua, a quem perguntamos: 'Onde fica a Rua do Norte?; e essa pessoa é capaz de nos acompanhar ao longo de um quarteirão e indica-nos a rua, sempre simpática e amável. Mas essa mesma pessoa, numa situação ou circunstância diferente, pode ser o pior dos sádicos. Ninguém se conhece a si próprio. Todos nós podemos ser boas ou más pessoas, nestas (diferentes) situações. Por vezes, quando alguém é simpático, doy comigo a pensar: 'Como é que ele seria em Sobibór?'"» (in Auschwitz, Os Nazis e a Solução Final, Laurence Rees, CL, 2005, pp. 278-9)
Em 1983, Toivi Blatt conversou com Karl Frenzen, comandante alemão do campo de extermínio de Sobibór. Karl Frezen era um cristão alemão; na altura da conversa, estava com 72 anos; e Blatt com 43 - 29 anos de diferença. "Eu tinha 15 anos. Sobrevivi porque você determinou que fosse eu quem lhe engraxasse os sapatos. Além de mim, mais ninguém sobreviveu - nem o meu pai, nem a minha mãe, nem o meu irmão, nem nenhum dos dois mil judeus da minha terra, Izbica." Karl Frenzen pediu que esta conversa acontecesse porque sentia muito premente a necessidade de pedir perdão olhos nos olhos.
"Mas o senhor não fez nada para que o que se passou não acontecesse. O senhor tomou parte nisso." 
No que conheço da entrevista, Toivi Blatt não perdoou a Karl Frenzen, um cristão. Na verdade, não se trata de perdoar ou não perdoar. Trata-se de um gigantesca acção de maldade humana, incomensurável, em que sempre, a todo o momento, qualquer um de nós pode ser parte activa e empenhada. Trata-se de conter a Besta - que há dentro de nós e à nossa volta.
Na conversa entre o carrasco e a vítima, quando a vítima confronta o carrasco, olhos nos olhos, o carrasco justifica-se:
"You don’t know what went on inside of us." (Você não sabe o que a gente sentia dentro de nós)
Um pouco mais à frente, Blatt quis que Frenzen lhe dissesse o que lhe penguntavam os filhos, o que é que ele dizia aos filhos.
" When my children and friends ask me whether it is true, I tell them yes it is true. And when they say, but this is impossible, then I tell them again, it is really true. It is wrong to say it never happened. (Quando os meus filhos e os meus amigos me perguntam se é verdade, eu digo-lhes que, sim, que é verdade. E quando eles dizem que isso é impossível, eu digo-lhes outra vez que não. É errado dizer que isso nunca aconteceu)
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(1) "Nunca digas: - Desta água não beberei." Provérbio popular que quer dizer que  não devemos julgar-nos livres de fazer aquilo que condenamos ou criticamos nos outros.

domingo, janeiro 31, 2016

Psicologia - Frase da semana, 31JAN16: A VIOLÊNCIA, A TOLERÂNCIA, A LIBERDADE E A EDUCAÇÃO

Psicologia - Frase da semana, 31JAN16: A VIOLÊNCIA, A TOLERÂNCIA, A LIBERDADE E A EDUCAÇÃO


«Não consigo ainda compreender como é que Hitler conseguiu tal façanha: transformar homens e mulheres em seres brutais, sem o mínimo de sentido de humanidade.» (Nanette Konig, Sobrevivi ao Holocausto, 20|20 Editora, 2015, p. 28)

Nanette Konig escreve assim mais de setenta anos depois de ter sido libertada do campo de concentração de Bergen-Belsen.
Ora bem, o que não faltou durante estes setenta anos foram reflexões, explicações, análises - históricas, sociológicas, políticas, sei lá que mais. Também a Psicologia dos Grupos e das Multidões.
O drama, no meu entender, é o "terreno fértil" para o desenvolvimento dos sentimentos de ódio, raiva, violência e desumanidade. Esse terreno é a própria condição humana.
É esse o valor dos muito sofridos testemunhos de Nanette Konig, Hannah Elisabeth Pick-Goslar, Viktor Frankl, Janny Brandes-Brilleslijper e tantos outros - mostram-nos onde o ser humano é capaz de chegar se deixarmos que os afectos negativos se sobreponham aos positivos; e os afectos negativos não precisam de muito espaço para se manifestarem!
No meu entender, só a Política honesta; e a Educação na Família e na Escola conseguirão equipar-nos com as defesas capazes de conter a barbárie violenta que cada um de nós transporta na mente hipercomplexa e engenhosa que trazemos nesse maravilhoso produto da Evolução que é o cérebro humano.
Quanto à Política, como já alguém disse, a Política é uma coisa demasiadamente séria para a entregarmos nas mãos dos políticos e os deixarmos sozinhos com ela.
Quanto à Educação, todos os dias cada um de nós deve gerir o seu livre arbítrio, simbolizado na conversa ente o velho índio e o seu neto, da maneira mais respeitadora e tolerante possível:
Em uma noite, um velho índio falava ao seu neto sobre a luta que acontece dentro das pessoas.
Disse ele: –
Há uma luta entre dois lobos que vivem dentro de todos nós - um deles é bom; o outro é bom.
O neto pensou nessa luta e perguntou ao avô: – Qual é o lobo que vence a luta, avô?
O velho índio respondeu ao neto: – Vence o que lobo que tu alimentares...
Nanette Konig escreve assim nos últimos parágrafos do seu precioso, pungente, informativo e isento livro:
«constatei que um dos bens mais preciosos do ser humano é a liberdade: liberdade de ir e vir, liberdade de celebrar as suas crenças, liberdade de ser quem você é. Não há nada mais aprisionador para um ser humano do que proibi-lo de ser quem ele é. É essencial valorizarmos a nossa identidade. [...] escrevo este livro em prol da liberdade e da tolerância. [...] Infelizmente, apesar de gritarmos constantemente «nunca mais», a história do homem é feita até hoje por guerras - guerras sem justificação, nas quais se esquece o valor da vida. É por isso que o Holocausto é um acontecimento tão atual, que deve ser lembrado eternamente. [...] Espero que todos os jovens e todas as pessoas possam desfrutar de uma vida feliz, sendo tolerantes e respeitando o próximo.» (Nanette Konig, Sobrevivi ao Holocausto, 20|20 Editora, 2015, pp. 222-3)

sábado, janeiro 23, 2016

Psicologia - Frase da semana, 24JAN16: NÃO SE DERROTA A POBREZA SEM DERROTAR TAMBÉM A VIOLÊNCIA DO DIA-A-DIA

Psicologia - Frase da semana, 24JAN16: NÃO SE DERROTA A POBREZA SEM DERROTAR TAMBÉM A VIOLÊNCIA DO DIA-A-DIA


«Temos que começar a tornar o combate à violência [do dia-a-dia] indispensável na luta contra a pobreza. De facto, qualquer conversa sobre pobreza global que não inclua o problema da violência não deve ser vista como séria.»
(We have to start making stopping violence indispensable to the fight against poverty. In fact, any conversation about global poverty that doesn't include the problem of violence must be deemed not serious.)


O tipo de violência de que fala Gary Haugen está presente também no dia-a-dia dos países desenvolvidos; no fundo, em qualquer um em que há pobres - que são todos os países do Mundo!

O exemplo que ele nos traz dos Estados Unidos da América faz-nos, arrepiantemente, pensar na catadupa de casos trágicos dos hospitais e dos serviços de saúde portugueses que, nas últimas semanas, têm chegado ao conhecimento público.

É, no fundo, a denúncia da violência da autoritária (e formalmente legítima) lei administrativa e orçamental.
00:11
Para ser honesto, minha personalidade não é de uma pessoa emotiva. Mas eu acho que na minha carreira isso tem sido uma coisa boa. Sou advogado em direitos civis, e tenho visto algumas coisas horríveis no mundo. Iniciei minha carreira trabalhando em casos de abuso da polícia nos EUA. E então, em 1994, eu fui enviado para Ruanda para ser diretor de investigação de genocídio das Nações Unidas. Acontece que as lágrimas não são de grande ajuda quando você está tentando investigar um genocídio. As coisas que eu tinha de ver, sentir e tocar eram bem indescritíveis.
00:56
O que eu posso dizer é o seguinte: o genocídio de Ruanda foi uma das grandes falhas de simples compaixão do mundo. [Compaixão] A palavra compaixão, na verdade, vem de duas palavras do latim: "cum passio", que simplesmente significa "sofrer com". E as coisas que eu vi e vivi em Ruanda ao me aproximar do sofrimento humano, de fato, em alguns momentos, me levaram às lágrimas. Mas eu só desejava que eu, e o resto do mundo, tivéssemos nos emocionado mais cedo. E não só com lágrimas, mas, para de fato, parar o genocídio.
01:38
Por outro lado, eu estou envolvido num dos maiores sucessos de compaixão do mundo. [A luta contra a pobreza global] A luta contra a pobreza global. É uma causa que provavelmente tem envolvido todos nós aqui. Não sei se o seu primeiro contato tenha sido o refrão de "We Are The World", ou talvez uma foto de uma criança apadrinhada na porta do seu refrigerador, ou talvez o aniversário que você doou por água fresca. Não lembro qual foi ao certo o meu primeiro contato com a pobreza, mas eu me lembro do mais chocante.
02:12
Foi quando conheci Venus. [Zâmbia] Ela é uma mãe zambiana. Ela tem três filhos e é viúva. Quando a conheci, ela havia caminhado cerca de 20km, com a única peça de roupa que possuía, para vir à capital e compartilhar a sua história. Ela ficou comigo por horas, e me introduziu ao mundo da pobreza. Ela me descreveu como é quando o carvão usado para cozinhar se apaga completamente. Quando a última gota de óleo para cozinhar finalmente acaba. Quando o último alimento, apesar de seus esforços, acaba. Ela teve que ver seu filho mais novo, Peter, sofrer de desnutrição, enquanto as pernas dele lentamente se enfraqueciam, os olhos ficavam, cada vez mais, sombrios e turvos e, então, ele acabou falecendo.
03:17
Por mais de 50 anos, histórias como esta tem nos levado à compaixão. Nós, cujos filhos têm o que comer. E somos levados a não nos preocupar apenas com a pobreza global, mas realmente tentar fazer a nossa parte para parar o sofrimento. Agora, há muito espaço para criticar que não temos feito o bastante, e o que temos feito não tem sido suficientemente efetivo, mas a verdade é esta: A luta contra a pobreza global é provavelmente a mais abrangente, e a maior manifestação do fenômeno humano da compaixão na história de nossa espécie. E então, eu gostaria de compartilhar uma observação bem surpreendente que pode mudar para sempre o jeito que você pensa sobre esta batalha.
04:03
Mas primeiro, vou começar com o que você provavelmente já sabe. Há 35 anos, quando eu estava terminando o ensino médio, falava-se que 40 mil crianças morriam todos os dias por causa da pobreza. Este número, hoje, é menor que 17 mil. Ainda é muito, claro, mas, de fato, isto significa que a cada ano há 8 milhões de crianças que não morrem por causa da pobreza. Além disso, o número de pessoas no mundo que estão vivendo na pobreza extrema, àquelas que vivem com cerca de US$1,25 por dia, tem caído de 50%, para apenas 15%. Este é um enorme progresso, e supera as expectativas de todos sobre o que é possível. E eu penso que nós... Eu acho, honestamente, que nós podemos nos sentir orgulhos e animados em ver o modo que a compaixão pode atuar com êxito em acabar com o sofrimento de milhões.
05:09
Mas aqui vai a parte que você não deve ter ouvido falar muito. Se você elevar a faixa da pobreza para apenas US$2,00 ao dia, vemos praticamente as mesmas 2 bilhões de pessoas que estavam dentro da pobreza extrema quando eu estava no ensino médio, no mesmo lugar, 35 anos depois.
05:29
Então por que, por que tantos bilhões ainda estão dentro da pobreza extrema? Bem, vamos pensar sobre Venus por um momento. Por décadas, eu e minha mulher temos sido movidos pela compaixão em comum de ajudar crianças, financiar microempréstimos, apoiar vários níveis de auxílio internacional. Mas até eu ter falado com Venus de fato, eu não tinha ideia que nenhuma dessas abordagens realmente se endereçava ao porquê ela tinha de ver o filho morrer. "Nós estávamos bem", Venus me disse, "até Brutus começar a causar problema." Bom, Brutus é o vizinho de Venus, e "causar problema" é o que aconteceu no dia seguinte à morte do marido dela; quando Brutus simplesmente veio e jogou Venus e as crianças para fora de casa, roubou toda a terra e a banca de feira deles. Você vê, Venus foi jogada na miséria pela violência.
06:31
E então eu percebi, é claro, que nenhum patrocinador das minhas crianças, nenhum dos microempréstimos, nenhum dos programas antipobreza tradicionais iriam parar Brutus, porque não é o objetivo deles.
06:48
Isto ficou ainda mais claro para mim quando eu conheci Griselda. Ela é uma jovem garota maravilhosa que vive numa comunidade muito pobre na Guatemala. E uma das coisas que temos aprendido ao longos dos anos, é que talvez a coisa mais poderosa que Griselda e a família dela podem fazer para sair da pobreza é ter certeza que ela vá para a escola. Os especialistas chamam isto de "Efeito Garota". Mas quando nós conhecemos Griselda, ela não estava indo para a escola. De fato, raramente ela saía de casa.

07:27
Dias antes de a conhecermos, enquanto ela voltava para casa da igreja com a família, em plena luz do dia, homens da comunidade a agarraram na rua e a estupraram violentamente. Veja, Griselda teve toda oportunidade para ir para a escola, simplesmente não era seguro para ela ir lá. E Griselda não é a única. Ao redor do mundo, mulheres e garotas pobres com idade entre 15 e 44 anos, quando vítimas da violência diária, como violência doméstica e abuso sexual; estas duas formas de violência, juntas, somam mais mortes e invalidez do que a malária, acidentes de carro, e guerras juntos. O fato é que os pobres do mundo estão presos num sistema de violência.
08:27
No sul da Ásia, por exemplo, eu poderia passar por um engenho de arroz e ver um homem carregando sacos de 45kg de arroz nas costas. Mas eu não teria ideia, até mais tarde, que ele, na verdade, era um escravo, mantido pela violência naquele engenho de arroz, desde que eu estava no colégio. Décadas de programas antipobreza localizados na comunidade dele, nunca foram capazes de salvá-lo, ou as outras centenas de escravos, dos espancamentos, estupros e tortura dentro do engenho. De fato, meio século de programas antipobreza deixaram mais pessoas na escravidão do que qualquer outra época na história da humanidade.
09:12
Especialistas nos dizem que há por volta de 35 milhões de pessoas escravas hoje. Isto é praticamente toda a população do Canadá, onde estamos hoje. Este é o porquê, ao longo do tempo, eu passei a chamar esta epidemia de violência de "Efeito Gafanhoto". Porque na vida dos pobres, isso simplesmente vem como uma praga e destrói tudo. De fato, agora quando você examina comunidades muito, muito pobres, os moradores lhe dirão que o maior medo deles é a violência. Mas note que a violência que eles tem medo não é a violência de genocídio ou guerras, é a violência diária.
09:53
Para mim, que sou advogado, é claro, a primeira reação foi pensar: "Temos que mudar todas as leis." "Temos que tornar toda esta violência contra os pobres, ilegal." Mas então eu descobri, que já é ilegal. O problema não é que não existem leis para os pobres e, sim, que ela não é aplicada. [Aplicação da lei] No mundo em desenvolvimento, o sistema de aplicação de leis básicas está tão enfraquecido que recentemente as Nações Unidas publicou um relatório que descobriu que "as pessoas mais pobres vivem fora da área da proteção da lei." Agora, honestamente, nós não temos idéia do que isto significa, porque nunca vivenciamos isto na pele. O funcionamento da aplicação da lei para nós é totalmente pressuposto. De fato, nada expressa melhor isto do que três simples números: 9-1-1 que, claro, é o número da emergência policial aqui no Canadá e nos Estados Unidos, onde o tempo médio de resposta a uma ligação de emergência é por volta de dez minutos. Isto nos foi garantido por direito.
10:59
Mas e se não houvesse a aplicação da lei para te proteger? Recentemente, uma mulher do Oregon vivenciou como seria isso. Ela estava sozinha, em sua casa escura, num sábado à noite, quando um homem começou a se dirigir até la. Este foi o seu pior pesadelo, porque este homem já havia mandado ela para o hospital, após um estupro, apenas duas semanas antes. Amedrontada, ela pega o telefone e faz o que qualquer um faria: Liga para o 911, mas fica sabendo que por causa do corte de orçamento de seu município, a aplicação da lei não estava disponível aos finais de semana. Escute. Telefonista: Eu não tenho ninguém para mandar aí. Mulher: Tudo bem. Telefonista: Se ele entrar na residência e te atacar, você pode pedir para ele ir embora? Você sabe se ele está drogador ou algo assim? Mulher: Eu já pedi para ele. Falei que estava te ligando. Ele já invadiu antes, arrombou a porta, me atacou. Telefonista: Uhum. Mulher: Hum, é, então... Telefonista: Há alguma maneira de você sair da residência de modo seguro? Mulher: Não, eu não posso, porque ele está bloqueando meu único caminho de saída. Telefonista: Bem, eu só posso te dar alguns conselhos e ligar para o escritório do delegado amanhã. Obviamente, se ele entrar e infelizmente estiver armado ou tentar te machucar fisicamente, aí é uma outra história. O escritório do delegado não funciona hoje. Eu não tenho ninguém para enviar.
12:28
Gary Haugen: Tragicamente, a mulher dentro da casa foi violentamente atacada, estrangulada e estuprada porque é isto que significa viver fora do domínio da lei. E isto é onde bilhões das pessoas mais pobres vivem. Como isso funciona? Na Bolívia, por exemplo, se um homem ataca sexualmente uma criança pobre, estatisticamente, ele tem um risco maior de escorregar no banho e morrer do que ele ir para a prisão por causa deste crime um dia. No sul da Ásia, se você escraviza uma pessoa pobre, você corre um risco maior de ser atingindo por um raio do que de ser mandado para a prisão por este crime. E então a violência epidêmica diária, simplesmente impera. E devasta nossos esforços em tentar ajudar bilhões de pessoas a sair do inferno delas de US$2 por dia. Porque as estatísticas simplesmente não mentem. Acontece que você pode dar os melhores bens e serviços aos pobres, mas se você não impedir que agressores tomem tudo deles, você vai se decepcionar com a eficácia de seus esforços em longo prazo.
13:46
Você pode pensar que a desintegração da aplicação básica da lei no mundo em desenvolvimento, seja uma enorme prioridade para a luta global contra a pobreza. Mas não é. Recentemente, auditores da assistência internacional verificaram que nem mesmo 1% da ajuda é encaminhada para proteger os pobres do caos da violência diária. E honestamente, quando falamos sobre violência contra os pobres, às vezes, é de uma das maneiras mais estranhas. Uma organização sobre questões da água, tem um caso de partir o coração sobre garotas que são estupradas quando vão buscar água e, depois, celebra a solução do problema com um novo poço que encurta drasticamente o trajeto delas. Fim da história. Mas nenhuma palavra sobre os estupradores que ainda estão lá na comunidade. Se uma jovem, num campus universitário, fosse estuprada em sua ida à biblioteca, nós nunca celebraríamos a solução de mudar a biblioteca para mais perto do quarto. E ainda assim, por alguma razão, isto é normal para as pessoas pobres.
14:59
Agora a verdade é: os especialistas tradicionais em desenvolvimento econômico e redução da pobreza, não sabem como solucionar este problema. Então o que acontece? Eles não conversam sobre isto. Mas a principal razão para a aplicação da lei aos pobres no mundo em desenvolvimento ser tão negligenciada, é porque as pessoas que pertencem a este mundo, que tem dinheiro, não precisam dela. Há pouco, eu estava no Fórum Econômico Mundial, conversando com executivos que tem grandes negócios nestas regiões, e perguntei para eles: "Como vocês protegem seu pessoal e as propriedades de toda esta violência?" Eles se entreolharam e disseram, praticamente, em uníssono: "Nós compramos."
15:50
De fato, equipes de segurança privadas, no mundo em desenvolvimento, são agora, quatro, cinco e sete vezes maiores que a força policial pública. Na África, o maior empregador do continente agora é a segurança privada. Mas veja, os ricos pode pagar pela segurança e continuar enriquecendo, mas os pobres não podem pagar por ela e são deixados totalmente desprotegidos, sendo lançados ao chão.
16:21
Isso é uma atrocidade contundente e escandalosa. E não tem que ser assim. A não aplicação da lei pode ser consertada. A violência pode ser parada. Quase todos os sistemas de justiça criminal, começam quebrados e corrompidos, mas eles podem ser transformados por meio de esforço e comprometimento.
16:42
O caminho à frente está bem claro. Número um: Nós temos que começar a tornar a questão da violência indispensável na luta contra a pobreza. De fato, qualquer conversa sobre pobreza global que não inclua o problema da violência não deve ser vista como séria.
17:00
E em segundo lugar, temos que começar a investir recursos seriamente e compartilhar conhecimento para ajudar o mundo em desenvolvimento de modo que novos sistemas modernos de justiça pública, não de segurança privada, deem a todos a chance de estar seguros. Estas transformações são de fato possíveis e estão acontecendo hoje. Recentemente, a Fundação Gates financiou um projeto na segunda maior cidade das Filipinas, onde advogados locais e a aplicação local da lei foram capazes de transformar a polícia corrupta, e tribunais falidos, e em apenas quatro anos, eles reduziram consideravelmente o violência sexual contra crianças pobres em 79%.
17:50
Você sabe, a partir de uma visão retrospectiva da história, o que é mais inexplicável e indesculpável são as simples falhas de compaixão. Eu acho que a história pode reunir nossos netos num tribunal para nos questionar: "Vó, vô, onde vocês estavam? Onde você estava, vô, quando os judeus estavam fugindo dos nazistas alemães e estavam sendo rejeitados das nossas costas? Onde você estava? E vó, onde você estava quando eles estavam levando nossos vizinhos nipo-americanos para os campos de concentração? E vô, onde você estava quando eles estavam espancando nossos vizinhos afro-americanos só porque eles estavam tentando votar?" Do mesmo modo, quando nossos netos nos perguntam: "Vó, vô, onde vocês estavam quando as duas bilhões de pessoas mais pobres do mundo estavam se afogando no caos sem lei da violência diária? Eu espero que possamos dizer que tivemos compaixão e elevamos nossas vozes, e como uma geração, nos movemos para fazer a violência parar.
19:07
Muito obrigado.
19:09
(Aplausos)
19:25
Chris Anderson: Brilhantemente argumentado. Conte-nos um pouco sobre algumas coisas que tem acontecido atualmente para aumentar o treinamento policial. Qual é a dificuldade deste processo? GH: Uma das coisas notáveis que está acontecendo agora, é que o colapso destes sistemas e os efeitos estão se tornando óbvios. Na verdade, existe agora vontade política para fazer isto. Mas isso pede investimento de recursos e transferência de conhecimento. Há uma vontade política que está tomando poder, e essas são lutas que se pode ganhar, fizemos algumas coisas ao redor do mundo na Missão de Justiça Internacional que são bem animadores.
20:04
CA: Então, conte-nos quanto custa para um país por exemplo, conseguir uma diferença significativa na polícia, sei que é só uma parte da questão. GH: Na Guatemala, por exemplo, começamos um projeto com a polícia local, o sistema jurídico e promotores para treiná-los de modo eficaz e, assim, dar início a ações criminais. E já vimos processos contra autores de violência sexual aumentarem em mais de 1000%. Este projeto recebe cerca de um milhão de dólares por ano em financiamento, e o custo-benefício que você pode gerar quando se fortalece um sistema de justiça criminal, que funcionaria se fosse adequadamente treinado, motivado e liderado; e estes países, especialmente a classe média, que está vendo que não há futuro com esta instabilidade geral e a privatização total da segurança, eu acho que há uma oportunidade, uma janela para a mudança.
20:59
CA: Mas para que isto aconteça, você tem que olhar cada parte da estrutura... GH:Verdade. CA: A polícia, quem mais? GH: Então, esta é a questão sobre a aplicação da lei, começa com a polícia, ela é a etapa inicial da estrutura da justiça, mas é transferida aos promotores que repassam aos tribunais, e os sobreviventes da violência tem de ser ajudados pelos serviços sociais por todo este caminho. Então você precisa de uma abordagem que una tudo isso. No passado, havia um pouco de treinamento para os tribunais, mas eles recebiam péssimas evidências da polícia, ou uma pequena intervenção dela que tem a ver com narcóticos ou terrorismo, mas nada a ver com tratar uma simples pessoa pobre com a aplicação das lei ideal; então, trata-se de unirmos tudo isso e, aí, você terá pessoas em comunidades muito pobres vivenciando a aplicação da lei como nós, que ainda é imperfeita mesmo para nós, mas amigo, é muito bom saber que você pode ligar para o 911 e que há alguém para te proteger.
21:53
CA: Eu acho que você tem feito um trabalho espetacular ao trazer a atenção do mundo para isto no seu livro e aqui, hoje.
22:00
Muito obrigado.
22:01
Gary Haugen.
22:02
(Aplausos)

sábado, janeiro 16, 2016

Psicologia - Frase da semana, 17JAN16: É-SE REFUGIADO POR DESEJO OU NECESSIDADE?

Psicologia - Frase da semana, 17JAN16: É-SE REFUGIADO POR DESEJO OU NECESSIDADE?


«Nenhum pastó abandona a sua terra de livre e espontânea vontade. Ou a abandona por pobreza ou por amor.» (a avó da Malala) (1)

Abandonar a nossa casa foi como sentir o coração ser-me arrancado do peito (...) Pensava que Swat ficaria um dia livre dos talibãs e que festejaríamos, mas agora percebia que isso talvez nunca viesse a acontecer. Comecei a chorar. (...) A cinco de maio de 2009 tornámo-nos IPD. Deslocados internos. Parecia o nome de uma doença. (...) Não sabíamos de alguma vez voltaríamos a ver a nossa cidade. (...) Fiquei horrorizada. Fui murmurar versículos do Alcorão sobre os livros para tentar protegê-los. (...) Tínhamos visto fotografias da devastação (...) o meu pai disse: - "É como se fôssemos os israelitas a abandonar o Egipto, só que não temos nenhum Moisés para nos guiar." (...) Para proteger o 'purdah' (2) das mulheres, os homens das famílias que acolheram refugiados até dormiram fora das suas casas (3) (...) Tornaram-se IPD voluntários. Era um exemplo espantoso da hospitalidade pastó. (...) na viagem de regresso, ao passarmos pelo Pico de Churchill, pelas antigas ruínas na colina e pela estupa budista gigante, vimos o largo rio Swat e o meu pai começou a chorar. (...) Era o dia 24 de julho. (...) Para minha grande alegria, encontrei a minha mochila da escola ainda cheia com os meus livros, e dei graças por as minhas orações terem sido atendidas (...). (4)
____________
(1) in Eu, Malala, a minha luta pela liberdade e pelo direito à educação. Editorial Presença, 2015, p. 193.
(2) (diz-se das mulheres) segregação ou reclusão. uso do véu.
(3) Comentário pessoal. provocatório: afinal, nem todos os muçulmanos são adeptos do 'rape game', como o que aconteceu em Colónia, na Alemanha, na Passagem do Ano 2015/16.
(4) in Eu, Malala, a minha luta pela liberdade e pelo direito à educação. Editorial Presença, 2015, p. 193-197 e 205-206.

domingo, janeiro 10, 2016

Psicologia - Frase da semana, 10JAN16: AS SOMBRAS NÃO SÃO AS COISAS, MAS AS COISAS TAMBÉM NÃO SÃO SEM AS SOMBRAS QUE PROJECTAM

Psicologia - Frase da semana, 10JAN16: AS SOMBRAS NÃO SÃO AS COISAS, MAS AS COISAS TAMBÉM NÃO SÃO SEM AS SOMBRAS QUE PROJECTAM


«Muitos são aqueles que experimentam e gostam muito de desenhar, mas não têm talento; e isso vê-se bem nos rapazes que não são diligentes e nunca acabam os seus desenhos com sombras.» (Leonardo da Vinci) (1)

A seguir, o escrito que surge no caderno de notas de Leonardo da Vinci, sugere claramente a pedagogia do notável homem do Renascimento:
«Os jovens deveriam começar por aprender a perspectiva, e a seguir a proporção dos objectos. Depois ele pode copiar com base num bom mestre, para que comecem a habituar-se a formas mais finas. Depois, copiar com base na natureza, de modo a que confirmem pela prática as regras que aprenderam antes. Depois verem durante algum tempo o trabalho de vários mestres. Finalmente, então, ganharem o hábito de levarem para a prática, para os seus trabalhos, a arte que possuem.» (2)
A minha proposta é a de pensarmos estes pensamentos e recomendações pedagógicas para além do campo da Pintura, para além do universo da Arte. Tem a ver com a maneira de estar no mundo:

  • Somos o que vemos e entendemos do que vemos - é o central e determinante papel da percepção
  • Somos para além dos talentos que trazemos, somos também o esforço que pomos no que fazemos e a maneira como reagimos ao que não nos corre bem.
  • As coisas são a sua realidade no espaço e no tempo e não apenas a sua projecção em uma qualquer forma de existência virtual. É fundamental deslocarmo-nos no espaço e no tempo.
  • A realidade é feita das coisas e das sombras que as coisas projectam.
  • As sombras não são as coisas, mas as coisas também não são sem as sombras que projectam.
  • Temos muito a aprender com os outros... Repito, temos muito a aprender com os outros.
  • Como pais, professores, e líderes cívicos e políticos, temos de ter uma ideia sobre a melhor maneira de cuidar, conduzir e educar os mais novos - há sequências, há propostas melhores e piores, há que pensar e há que escolher.
____________
(1) «Many are they who have a taste and love for drawing, but no talent; and this will be discernible in boys who are not diligent and never finish their drawings with shading.» The Da Vinci Notebooks, Profile Books, 2005, p. 59.
(2) «The youth should first learn perspective, then the proportions of objects. Then he may copy from some good master, to accustom himself to fine forms. Then from nature, to confirm by practice the rules he has learnt. Then see for a time the works of various masters. Then get the habit of putting his art into practice and work.» The Da Vinci Notebooks, Profile Books, 2005, p. 59.

domingo, janeiro 03, 2016

Psicologia - Frase da semana, 03JAN16: VOTO PARA O ANO NOVO?... OBJECTIVO?... DETERMINAÇÃO?... REPTO?...

Psicologia - Frase da semana, 03JAN16: VOTO PARA O ANO NOVO?... OBJECTIVO?... DETERMINAÇÃO?... REPTO?...


«Pedi e dar-se-vos-á; procurai e acharei; batei e abrir-se-vos-á.» (Evangelho de São Lucas, 11:9)

Bem poderia o versículo bíblico ser uma daquelas fórmulas tão caras às estratégias de auto-motivação da Psicologia americana, que o sujeito deve repetir sistematicamente a si-mesmo, ao jeito da "água mole em pedra dura, tanto bate até que fura". (1)
Está explorado até à saciedade o discurso crítico dos frágeis desejos e vãs esperanças do ano novo que se celebra na noite de Passagem de Ano, seja com  a tradição supersticiosa ou não das 12 passas ao som das 12 badaladas. Tanto mais que as 12 badaladas são cada vez mais raras, sendo substituídas por histriónicos vozeirões colectivos, comandados ou não por um qualquer canal de televisão a que se tem os olhos e os ouvidos pregados.
O desenvolvimento (ou sofisticação) destes comportamentos, destes votos, está a trazer cada vez mais psicólogos que, nas mesmas televisões, ensinam como se devem fazer os desejos e como se deve fazer para os concretizar. Pois...
Vive-se, cada vez mais, em celebrações normalizadas, estandartizadas, que sobram em actos e minguam em convicções. Ora seria precisamente esta dimensão de convicção e determinação pessoal que seria interessante cultivar! A Passagem de Ano tem o condão de juntar famílias, juntar amigos, juntar gente anónima, juntar governos; porque não aproveitar a sério a oportunidade? De mais a mais porque logo à meia-noite da Passagem de Ano chega, no calendário oficial do Mundo, a celebração do Dia Mundial da Paz.
2016 é o primeiro ano que entra com o drama da vaga de Refugiados, que tanto se tento negar até ao ano que acabou há dias. É também o primeiro ano que entra com a assumpção oficial dos maiores - e mais poluidores - países do Mundo dos estragos provocados pelas Sociedades Humanas no Ambiente, e no Futuro das novas gerações.
Entramos, pois, num ano, em que todos somos chamados a não fazer mais como tradicionalmente nos habituámos a criticar à pobre avestruz: enfiar a cabeça na areia.
Em 26 de março de 1967, o Papa Paulo VI publica a CARTA ENCÍCLICA 'POPULORUM PROGRESSIO', SOBRE O DESENVOLVIMENTO DOS POVOS, titulando logo ao início que "A QUESTÃO SOCIAL ABRANGE AGORA O MUNDO INTEIRO".
Passaram 48 anos sobre a publicação da encíclica. «Buscai e encontrareis», cita Paulo VI.
Se é verdade que o mundo sofre por falta de convicções, nós convocamos os pensadores e os sábios, católicos, cristãos, os que honram a Deus, os que estão sedentos de absoluto, de justiça e de verdade: todos os homens de boa vontade. Seguindo o exemplo de Cristo, ousamos pedir-vos instantemente: "buscai e encontrareis", abri os caminhos que levam pelo auxílio mútuo a um aprofundamento do saber, a ter um coração grande, a uma vida mais fraterna numa comunidade humana verdadeiramente universal.
A seguir, e mesmo antes da bênção final, diz Paulo VI:
Vós todos que ouvistes o apelo dos povos na aflição, vós que vos empenhais em responder-lhes, vós sois os apóstolos do bom e verdadeiro desenvolvimento, que não consiste na riqueza egoísta e amada por si mesma, mas na economia ao serviço do homem, no pão cotidiano distribuído a todos como fonte de fraternidade e sinal da Providência. 
Quer dizer, meio século de vida tem a encíclica. Mantém todo o sentido e contundência. Passaram 50 anos de votos de Passagem de Ano - O que fizemos? O que vamos fazer?

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(1) Água mole em pedra dura tanto bate até que fura
Significado: A expressão louva a persistência como virtude que vence a dificuldade, ou seja, insista que você consegue.
Histórico: Há registro de dois milênios em Ovídio (43 a.C.-18 d.C.), poeta latino, autor de A arte de amar e Metamorfoses: “A água mole cava a pedra dura.” É tradição de várias culturas formar rimas nesse tipo de oração para facilitar a memorização. Foi o que nós, de língua portuguesa, fizemos com o provérbio. - See more at: http://www.newsrondonia.com.br/noticias/o+verdadeiro+significado+de+alguns+ditados+populares/24351#sthash.ZHiE0KQB.dpuf

sábado, dezembro 26, 2015

Psicologia - Frase da semana, 27DEZ15: BRINCOS PERIGOSOS!

Psicologia - Frase da semana, 27DEZ15: BRINCOS PERIGOSOS!



Rapariga com brinco de pérola, de Johannes Vermeer
«Vai a sair quando ouve um deles murmurar para o outro: «Achas que lhe vai doer?» E o ar de ambos é, de repente, tão infeliz e desamparado, que ela volta atrás e diz: «Não dói nada, estejam descansados!»
E quando o homem lhe sorri desajeitadamente, só por vergonha é que ela não diz à amiga que o achou ligeiramente parecido com o filho mais velho.
»


OS BRINCOS
Tinha deixado passar o Natal para tudo estar mais calmo. No último dia do ano, quando muito estariam cheias as lojas de alimentação. A amiga ainda torceu o nariz, que deixasse para depois, que os brincos não fugiam, estivesse ela descansada. Mas ela insistiu: «Não quero entrar no ano novo sem os brincos, pronto!»
Quando chegaram à loja respiraram aliviadas: tirando um casal de noivos a escolher alianças, mais ninguém lá se encontrava.
O empregado logo as atendeu e, de repente, o balcão da ourivesaria brilhava de uma ponta à outra: de um lado, estendiam-se alianças grossas, fininhas, largas, estreitas; do outro, estendiam-se brincos de pérolas, brilhantes, pedras verdes e azuis – embora ela tivesse logo explicado que queria aqueles que estavam na montra, uma pérola e mais nada, iguaizinhos aos que o marido lhe oferecera no dia do nascimento do filho mais velho e que ela deixara roubar numa viagem. Mas isto ela não diz ao empregado, claro.
Foi então que os dois homens entraram. De rompante. Enormes, pele muito escura, barba de muitos dias, o rosto de ambos totalmente encobertos por cachecóis sem cor.
Num segundo os empregados fazem desaparecer brincos e alianças, a noiva fica mais branca do que a parede da loja. A amiga murmura-lhe qualquer coisa como «eu bem não queria vir», e ela começa a sentir a cabeça a andar à roda, virão roubar o quê? trarão pistola?,o que se sentirá quando se leva um tiro?
Os homens avançam rapidamente até ao balcão, cara de poucos amigos, mãos nos bolsos de sobretudos meio esfiapados. «É agora», pensa ela, «daqui não escapo viva», pensa a noiva. «Se ao menos eu soubesse onde está o alarme», pensa o empregado, que é novo e ainda não conhece os cantos à casa.
É então que se ouve um barulho estranho, entre o miar de gato e o piar de ave aflita: meio metro de gente, mal se equilibrando de pé, olhos muito negros e redondos, agarrada ferozmente às pernas do maior dos dois homens que, sem mais rodeios, diz para o empregado, apontando-a: «Fure-lhe as orelhas.»
Começaram todos a sentir-se mais aliviados. Regressam as alianças, regressam os brincos, só a miúda não pára de gemer. «Fure-lhe as orelhas, senhor», insiste o homem, «não quero que ela entre no ano novo sem brincos.»
A miúda desaparece pela mão do empregado, enquanto os dois homens esperam. Enormes, mãos nos bolsos, ar de poucos amigos.
Ela escolhe os brincos, de repente está cheia de pressa de se ir embora, o empregado embrulha, ela paga.
Vai a sair quando ouve um deles murmurar para o outro: «Achas que lhe vai doer?» E o ar de ambos é, de repente, tão infeliz e desamparado, que ela volta atrás e diz: «Não dói nada, estejam descansados!»
E quando o homem lhe sorri desajeitadamente, só por vergonha é que ela não diz à amiga que o achou ligeiramente parecido com o filho mais velho.
(Alice Vieira, “Bica Escaldada”, Casa das Letras, 3.ª ed., 2009, p. 177-8.)

sábado, dezembro 19, 2015

Psicologia - Frase da semana, 20DEZ15: VOTOS DE SANTO NATAL. OBRIGADO, ALICE VIEIRA!

Psicologia - Frase da semana, 20DEZ15: VOTOS DE SANTO NATAL. OBRIGADO, ALICE VIEIRA!


http://welovewords.com/lea-c
Quem é o Pai Natal, afinal?
a) É o homem, feliz, que olha à janela.
b) É o taxista, bem-disposto, que olha o homem que está à janela.
c) É o velhote a quem dói muito a perna.
d) É o industrial que ficou com o carro avariado.
e) É o Chico Buarque, o autor de "A Banda".

«Porque, já lá dizia a minha avó, aquilo que terá de vir, ao colo nos irá cair...»
UM HOMEM À JANELA
                Se calhar por porque amanhã é Natal e as pessoas andam imbuídas do espírito da época. Se calhar foi porque eu tenho sorte, e calham-me sempre taxistas simpáticos na cidade do Porto. Se calhar foi porque sim – que, já lá dizia o poeta Augusto Gil, é sempre a mais forte das razões.
                A verdade é que eu ia carregada de embrulhos, chovia que Deus a dava, a hora de ponta ameaçava (se é que ainda há hora de ponta…), e o táxi que me levava, tal como os outros carros todos, andava pelas ruas num pára-arranca de fazer aflição. É nesta altura que normalmente as pessoas perdem a paciência, desatam a insultar o da frente que ó tempo que já podia ter passado, mas não, saiu-te a carta na Farinha Amparo, ó animal, ou então insultam o governo, isto é tudo a mesma cambada, prometem, prometem, mas não fazem nada, eu cá se mandasse punha aqueles gajos todos que estão lá no Parlamento na rica vida, sim que aquilo ninguém faz nada, punha-os todos aqui a trabalhar, para eles verem o que é bom para a tosse.
                Mas, para meu grande espanto, começo a ouvir, primeiro num quase murmúrio, depois ligeiramente mais alto, uma voz extremamente afinada a cantar «eu estava à toa na vida/ o meu amor me chamou/ para ver a banda passar/ cantando coisas de amor…» E a seguir uma risada bem-disposta. Olhou para mim pelo retrovisor e apontou para um prédio: «A senhora já viu ali aquele homem à janela? Há que tempos eu não via um homem à janela! Por isso é que até me deu vontade de cantar isto. Ali está ele, sem pressas, a ver a banda passar. Ainda por cima com esta chuva. Aquilo até é capaz de lhe fazer mal. Mas que está feliz, lá isso está. Um homem à janela!»
                Sim, porque, continuava ele, ninguém hoje tem tempo para nada, anda tudo em correrias e para quê?, entram-me aqui no carro e pensam que ele tem asas, e às vezes até me insultam como se tivesse alguma culpa. O que vale é que eu já tenho muitos anos disto e na maior parte dos casos, olhe, ponho-me ali como o homem da janela, ouço tudo e limito-me a ver a banda passar… Porque, já lá dizia a minha avó, aquilo que terá de vir, ao colo nos irá cair. Aqui há bastante tempo, continuava ele, apanhei um passageiro em Campanhã, o velhote, coitadito, mancava de uma perna, mal podia com ele, e diz-me assim, desculpe lá, amigo, esta perna dói-me muito, mas eu cheguei agora e precisava de ir ao restaurante Aleixo, está lá gente à minha espera, eu sei que isso é já ali ao cimo da rua, mas esta perna dá cabo de mim, eu depois dou-lhe mais qualquer coisa. É claro que levei o velhote, mas a pensar comigo, começas bem o dia, ó Joaquim… Então não é que, depois de ajudar o velho a entrar no restaurante, não me sai de lá de dentro um homem que me pergunta se eu estou livre para o levar a Ponte de Lima?! A senhora está a ver onde fica Ponte de Lima, não está? O carro dele parece que se tinha avariado, assim uma coisa dessas, sei é que lá fomos os dois, ele era um industrial aqui para o Norte e, conversa puxa conversa, arranjou-me emprego para o meu filho! Está a ver como são as coisas… O que tem de ser tem muita força, não é? Mesmo que a gente esteja à janela, ali como aquele, o que tiver de vir, ao colo nos há-de cair.»
                Quando desci do táxi já ele voltava a cantarolar, «eu estava à toa na vida…», feliz por haver um homem que, no fim de uma tarde de chuva, ainda tinha tempo para estar tranquilamente à janela, a olhar os carros, as pessoas, o mundo.
(Alice Vieira, “Bica Escaldada”, Casa das Letras, 3.ª ed., 2009, p. 133-4.)

domingo, dezembro 13, 2015

Psicologia - Frase da semana, 13DEZ15: GENEROSIDADE - É NATUREZA HUMANA PROFUNDA

Psicologia - Frase da semana, 13DEZ15: GENEROSIDADE - É NATUREZA HUMANA PROFUNDA

«A raiz da generosidade encontra-se na palavra latina
"genus", "generis", um termo que lembra raça, família, nascimento – é este o primeiro significado da palavra "genere".» Luigino Bruno






As poderosas sementes da generosidade

As empresas e todas as organizações serão lugares de vida boa e plena desde que deixem viver virtudes não económicas ao lado das económicas-empresariais. Uma coexistência decisiva, mas nada simples, porque exige que os dirigentes renunciem ao controlo total dos comportamentos das pessoas, que aceitem uma componente de imprevisibilidade nas suas ações, estarem dispostos a relativizar até mesmo a eficiência, que se está a tornar o verdadeiro dogma da nova religião do nosso tempo. A generosidade é uma destas virtudes não económicas, mas também essenciais para todas as empresas e instituições.

A raiz da generosidade encontra-se na palavra latina "genus", "generis", um termo que lembra raça, família, nascimento – é este o primeiro significado da palavra "genere". Esta antiga etimologia, hoje perdida, diz-nos coisas importantes sobre a generosidade. Antes de mais, recorda-nos que a nossa generosidade tem muito a ver com a transmissão da vida: com a nossa família, com as pessoas à nossa volta, com o ambiente em que crescemos e aprendemos a viver. Recebemo-la em herança, ao vir ao mundo. É um dote que nos deixam os nossos pais e parentes. A generosidade forma-se dentro de casa. A que temos dentro depende muito da generosidade dos nossos pais, de como e quando se amaram antes de nós nascermos, das escolhas de vida que fizeram e das que fazem quando nós começamos a olhá-los. Da sua fidelidade, da sua hospitalidade, da sua atitude para com os pobres, da sua disponibilidade em “gastar” o tempo para ouvir e ajudar os amigos, do seu amor e do reconhecimento para com os seus pais.

Esta generosidade primária não é uma virtude individual, mas um dom que começa a fazer parte da dotação moral e espiritual, daquilo a que se chama carácter. É um capital com que chegamos à Terra, que se formou antes do nosso nascimento e que se alimenta da qualidade das relações, nos primeiríssimos anos de vida. Depende também da generosidade dos nossos avós, dos bisavós, dos vizinhos de casa e de muitos outros que, embora não compondo o meu ADN, estão também presentes, de modo misterioso mas realíssimo, na minha generosidade (e não generosidade). É influenciada pelos poetas que alimentaram o coração da minha família. Pelas orações do meu povo, pelos músicos de que gosto e escuto, pelos contadores de histórias nas festas da aldeia, pelos discursos e pelas ações dos políticos, pelas homilias dos pregadores. Pelos mártires de todas as resistências, pelos que ontem deram a sua vida pela minha liberdade de hoje. Pelas generosidades infinitas das mulheres dos séculos passados (há uma grande afinidade entre mulher e generosidade), que puseram o florescimento da família, a que deram vida, acima da sua – e continuam a fazê-lo. A generosidade gera reconhecimento por quem nos tornou generosos com a sua generosidade.

Viver com pessoas generosas torna-nos generosos – assim como acontece com a oração, com a música, com a beleza… Cultivar a generosidade produz muito mais efeitos que os que conseguimos ver e medir – e o mesmo acontece com a não-generosidade, nossa e dos outros. O depósito de generosidade duma família, de uma comunidade, de um povo, é uma espécie de soma da generosidade de cada um. Cada geração desenvolve o valor deste depósito ou o reduz, como está a acontecer, hoje, na Europa, onde a nossa geração, empobrecida de grandes ideais e paixões, está a delapidar o património de generosidade que herdou. Um País que deixa metade dos seus jovens sem trabalho, não é um país generoso.

A nossa generosidade, portanto, reduz-se ao envelhecer. Quando nos tornamos adultos e, depois, anciãos, encontramos, naturalmente, menos generosidade. O horizonte futuro torna-se finito e próximo e, assim, o tempo – que é a primeira “moeda” da generosidade – torna-se mais escasso. Nunca nos é suficiente e não há mais para os outros. E, assim, para conservar a generosidade que herdámos e cultivamos desde jovens, é preciso muito trabalho. Aqui, a generosidade torna-se virtude, porque é preciso muito amor e muita dor para se manter generosos quando os anos passam.

Mas é fundamental conservar-se generoso se se quer continuar a gerar vida. Generosidade e gerar são duas palavras irmãs, uma lê-se e explica-se com a outra. Só quem é generoso gera, e a geração da vida reforça e alimenta a generosidade. Um sintoma do declínio da generosidade é, então, a não fecundidade ou esterilidade da vida. Quando nos encontramos, frequentemente dum momento para o outro, sem criatividade e energia vital para esperar voltar a gerar, é preciso desejar ser ainda generoso, em qualquer idade – o tempo doado por uma pessoa novamente generosa tem um valor infinito.

Nas empresas, que são simplesmente um pedaço de vida, há frequentemente muita generosidade e, por isso, produtividade. Os empresários são generosos por vocação, sobretudo na primeira fase da sua atividade, quando a empresa não é senão uma caixa de sonhos para realizar, quando todos os dias nascem novas ideias, quando se está de tal modo ocupado a fazer nascer o novo que não sobra tempo para a avareza e a mesquinhez. As boas empresas, mesmo as económicas e industriais, nascem de pessoas generosas, e continuam a nascer assim. Quando uma empresa começa, a generosidade dos empresários, sócios, dirigentes, trabalhadores, não é apenas importante; é essencial para crescer bem. Sem o entusiasmo e o excesso de todos em relação a quanto o contrato de trabalho e os deveres pedem, logo sem generosidade, as empresas não perduram; podem nascer gabinetes para responder às chamadas ou para captar alguma oportunidade especulativa, mas não empresas boas e bonitas.

A alegria, “sacramento” de qualquer vida generosa, acompanha também o início das aventuras dos jovens empresários e das verdadeiras empresas. Mas quando a empresa cresce e se transforma, progressivamente, numa organização complexa, burocrática e orientada racionalmente para os objetivos, a generosidade originária dos empresários reduz-se e a verdadeira generosidade dos trabalhadores não mais é exigida nem encorajada. Em seu lugar é desenvolvida uma subespécie de generosidade: a que existe em função dos objetivos, que se pode gerir e controlar. E, assim, tira-se a sua dimensão de excedente, de abundância, de liberdade. A generosidade não é eficiente, porque tem uma necessidade essencial de esbanjamento e de superabundância. E não é estimulável, porque não responde à lógica do cálculo.

Compreende-se, então, que uma cultura organizativa construída à volta da ideologia do incentivo faz murchar, nos seus membros, precisamente a dimensão de generosidade excedente que lhe tinha permitido ser inovadora e fecunda nos melhores tempos. A empresa tornada instituição quer apenas a generosidade que entra nos seus próprios planos industriais, uma generosidade limitada, domesticada, reduzida. Mas se a generosidade perde a abundância e o excedente, desvirtua-se, torna-se outra coisa. Não se pode ser generoso “por objetivos”.

Quem procura normalizar a generosidade enfraquecendo as suas dimensões menos controláveis e mais desestabilizadoras, não faz senão combater e matar a própria generosidade. A generosidade produz os seus bons frutos se é deixada livre para gerar mais frutos do que os necessários. Mas é precisamente a convivência de frutos “úteis” e “inúteis” um dos grandes inimigos das empresas capitalistas e de todas as instituições burocráticas. Conseguimos, com a tecnologia, construir “tangerinas” sem as maçadoras sementes; mas se as técnicas de gestão eliminam da nossa generosidade as “sementes” que não agradam ou não são úteis à empresa, é a própria generosidade a desaparecer. Os seres humanos dão muito apenas se são livres de dar tudo. A qualidade da vida, em muitas das nossas organizações, dependerá sempre da capacidade dos seus dirigentes em deixar amadurecer mais frutos do que os que se colocarão nos mercados, em fazer viver e crescer também as virtudes que não interessam à empresa.

Chegámos, de novo, a uma nova conjugação do principal paradoxo das organizações modernas. O crescimento das dimensões e a aplicação de técnicas e métodos estandardizados de gestão e controlo sacrificam, nos trabalhadores, as características que a fizeram nascer e de que a empresa teria ainda necessidade vital para continuar a produzir. Esta é uma lei que vale para todas as organizações, mas que é crucial quando se tem que lidar com empresas e comunidades que vivem apenas se e quando arriscam ter pessoas generosas colocadas em condições de exercitar a sua generosidade também no trabalho.

Há, enfim, um aspeto especialmente delicado na dinâmica da generosidade. É a que podemos chamar “castidade organizativa”. Generosidade não se refere apenas a gerar; requer também a "castidade", uma palavra que apenas na aparência pode parecer a antítese das outras duas. A pessoa generosa não “come”, não consome as pessoas que vê à sua volta, mas deixa-as completamente livres. Uma empresa-organização generosa não ambiciona a posse total do tempo e da alma dos seus melhores trabalhadores, nem sequer dos especialistas de quem depende quase todo o seu sucesso. Porque sabe – ou intui – que, se o fizer, estas pessoas perderiam as dimensões de beleza que as tinham tornado excelentes ou especiais; que, para permanecerem vivas, precisam de liberdade e de excedente. Se apanho a belíssima flor do vale alpestre para enfeitar a sala de estar, já decretei o seu fim. Mesmo que lhe conserve as raízes e as plante no meu jardim, não voltarei a ver as cores e o perfume que me tinham atraído na montanha, porque eram o fruto espontâneo da generosidade de todo o vale, daquele sol, daqueles minerais, daquele ar.

Os melhores jovens das nossas organizações e comunidades permanecem belos e luminosos enquanto não quisermos transplantá-los para o jardim de casa, enquanto os não transformarmos num bem “privado”, enquanto estivermos dispostos a partilhar a sua beleza com todos os habitantes do vale. Há muitos jovens que murcham nas grandes empresas e, por vezes, também nas comunidades religiosas, porque não encontram a generosidade necessária para manter a sua beleza excedente. Para conservar a generosidade das pessoas, são necessárias instituições generosas, pessoas magnânimas, almas maiores que os objetivos da organização.

Estamos habitados por um sopro de infinito. Todos os lugares da vida continuam a florir enquanto o sopro permanecer vivo, livre, inteiro.

Luigino Bruno
In "Avvenire"
Trad.: P. António Antão