domingo, julho 19, 2015

A ordem social é da Humanidade, igual para todos; ou é diferente de uns para os outros?

Psicologia - Frase da semana, 19JUL15: A ORDEM SOCIAL É DA HUMANIDADE, IGUAL PARA TODOS; OU É DIFERENTE DE UNS PARA OS OUTROS?


«A burocracia surge-me como um fenómeno dos bons
tempos. [...] em toda a parte, e em cada abrigo, vai-se estabelecendo uma espécie de ordem, de disciplina. [...] Deve fazer parte da nossa natureza.»
(anónimo, "Um Mulher em Berlim, Asa, 2014, p. 23)
Esta ideia - trazida a escrito por uma senhora alemã, berlinense que testemunhou a chegada das tropas russas à capital alemã em 1945 -, é abundante em ingredientes para ser tomada como verdadeira, correcta e absoluta; mas... mas eu "desconfio" dela, já digo porquê. Para já, por que razões se tornará fácil tomá-la como disse - verdadeira, correcta, absoluta:
1) é escrita por alguém que deseja manter-se anónimo; quer dizer, não persegue a fama, logo, é uma pessoa honesta.

2) o relato é verdadeiro, pertence a um dos momentos mais infelizes da História Moderna, que ocupa ainda hoje uma posição de grande destaque no pensamento das culturas humanas; e é de estudo obrigatório nas escolas de muitos países do Mundo.

3) é escrito por uma mulher, que crenças estereotipadas e preconceituosas põem como mais sincera e verdadeira do que os homens, como se da mãe boa, sincera e frontal se tratasse. Diz o prefácio do livro: «Sem o testemunho da autora, a crónica dos nossos tempos, que tem sido escrita quase exclusivamente por homens, seria parcial e incompleta».

4) é o pensamento de alguém que está olhos nos olhos com a morte; ou seja a tragédia em que participa, fruto de outro pensamento preconceituado e estereotipado, dá-lhe uma aguda consciência do sentido da vida, dos valores e dos sentimentos de humanidade.

5) é o pensamento de alguém cujo relato nos faz deduzir que é uma pessoa boa e culta.

Pois, pode ser que sim... mas eu, como já dei a entender, ainda não estou convencido. Por agora ainda "desconfio" deste pensamento:
- não tenho certezas sobre este assunto, nem alguma vez, até agora, me preocupei em ter. Como, entretanto, fui confrontado com ele (no fundo, um assunto sobre a essência e a especificidade da Natureza Humana) pelo livro da anónima autora, não posso deixar de me interrogar sobre o que, afinal, penso sobre isto; e se, numa aula, um aluno me perguntasse a minha opinião sobre o assunto, o que lhe responderia eu?
Ora, se a autora foi pressionada pelas circunstâncias da vida pessoal com que se confrontava para pensar como veio a deixar escrito, eu também penso ligando o assunto/ a questão/ o tema às circunstâncias actuais da minha vida pessoal, ou melhor, das circunstâncias da vida em sociedade em que, quer queiramos, quer não, os meios de comunicação social, agressivamente, nos trazem, sem que seja possível escapar a essa pressão informativa quase propagandista.
Quais são essas circunstâncias actuais? São a Grécia, a Alemanha; os resgates e os perdões das dívidas; os povos que trabalham, os que são preguiçosos; os que são solidários e os que são implacáveis; e a regras que se cumprem, as que não se cumprem, mas que - dizem uns mais que outros; e todos de maneiras diferentes - nunca deveriam deixar de ser cumpridas.
No fundo, num pensamento ainda muito sincrético, pouco elaborado, pergunto-me, tendo em mente a expressão de ódio e de intransigência dos líderes políticos da Alemanha e outros dirigentes políticos do Norte da Europa em relação aos gregos, se o que está em causa não será a mais abismal incapacidade de tais líderes e dirigentes europeus entenderem que outros grupos humanos pensem de maneira diferente sobre as regras e a ordem social.
Será que a autora anónima, possivelmente tão alemã quanto Merkel e Schäuble, toma a nuvem por Juno e projecta na Humanidade Universal um certo tipo de organização social que se enraizou na genética cultural de apenas um ou alguns poucos povos do Mundo?
E nestes (des)encontros entre o que os outros são e o que fazemos, nas nossas mentes, eles serem nós todos vamos tecendo os novelos do grande (des)concerto do Mundo. No fundo, se eu não me entende com os outros, como posso esperar que os outros se entendem comigo?
A luta da minha circunstância não é, como tantos líderes europeus parecem pensar, entre a ordem e a desordem (ou não-ordem), em sentido absoluto; a mim, parece-me ser entre uma certa ideia de ordem (dominante, a alemã) e outras ordens.(1)

A citação de todo o parágrafo do anónimo autor:
«A burocracia surge-me como um fenómeno dos bons tempos. A verdade é que todas as repartições são dissolvidas logo que começam a cair os primeiros estilhaços de granada. (A propósito, agora está tudo muito calmo. Uma calma inquietante.) Deixámos de ser governados. E, no entanto, em toda a parte, e em cada abrigo, vai-se estabelecendo uma espécie de ordem, de disciplina. Quando a minha casa foi bombardeda, reparei como todos partiam ordeiramente, os que haviam estado soterrados, os feridos e os traumatizados. Também aqui na cave do prédio prevalece a força da ordem, um espírito que dirige, organiza e comanda. Deve fazer parte da nossa natureza. A humanidade já terá funcionado assim na Idade da Pedra. Seres gregários, instinto de sobrevivência da espécie.»

(1) Será esta "força da ordem", como lhe chama a autora, a explicação da espantosa recuperação da sociedade alemã depois das duas Grandes Guerras? Mas, para que isso fosse possível, não terá sido muito importante outra concepção da ordem social e do "gregarismo" entre os Povos, como, por exemplo, os gregos deram mostram quando colaboraram no perdão da grande dívida alemã depois de uma dessas guerras?

domingo, julho 12, 2015

Psicologia - Frase da semana, 12JUL15: QUE TEMPO HISTÓRICO, PLANETÁRIO ESTAMOS MESMO A VIVER?

Psicologia - Frase da semana, 12JUL15: QUE TEMPO HISTÓRICO, PLANETÁRIO ESTAMOS MESMO A VIVER? 


«[Vivemos, hoje em dia] uma espécie de conflito inter-geracional. e esse conflito não é apenas inter-geracional, mas também intra-geracional, interno, porque a parte de nós que foi treinada há, por exemplo, vinte anos atrás deve estar em conflito com a parte de nós que tenta lidar com as dificuldades actuais. [...] nunca houve um momento na história da espécie humana em que tenham acontecido tantas mudanças como no nosso tempo. [...] nunca mais haverá [...]» (Carl Sagan, "As variedades da experiência científica, Uma visão pessoal da procura de Deus", Gradiva, 2007, pp. 199-201)

Dotado de uma notável inteligência, Carl Sagan será, para muitos, um autor a ser lido e respeitado sob condição - é que ele não é crente de nenhum deus; e nem os mais sinceros, piedosos e tolerantes crentes em deuses, especialmente os crentes monoteístas, em última instância, aceitarão o que ele afirme, ou sequer hipotetize - em última instância, nos temas em que a ciência confronte a crença, a força da crença faz tombar o peso da balança, sempre para o mesmo lado. A tolerância de um crente está sempre dependente de a essência do seu deus, qualquer que ele seja, não ser posta em causa - e isto é uma forma de intolerância; de radical intolerância.
Noutra conferência, da série donde fui buscar as afirmações que destaquei, Sagan diz:
«Num universo complexo, numa sociedade que passa por mudanças inéditas, como poderemos encontrar a verdade se não estamos dispostos a questionar tudo e a dar uma oportunidade igual a tudo? Há uma tacanhez de mente a nível mundial que põe em perigo a espécie.» (mesma obra, pág. 223)

No original:
«[...] Consider our past circumstances. Imagine our ancestors, a small, itinerant, nomadic group of hunter-gatherer people. Surely there was change in their lives. The last ice age must have been quite a challenge some ten to twenty thousand years ago. There must have been droughts and new animals suddenly migrating into their area. Of course there is change. But by and large the change is extraordinarily slow. The same traditions for chipping stone to make spears and arrowheads, for example, continues in the East African paleoanthropological sites for tens or hundreds of thousands of years.
In such a society, the external change was slow compared to the human generation time. Back then traditional wisdom, parental prescriptions, were perfectly valid and appropriate for generations. Children growing up of course paid the closest attention to these traditions, because they represented a kind of elixir of the wisdom of previous generations; it was constantly tested, and it constantly worked. It is not for nothing that ancestors were venerated. They were heroes to subsequent generations, because they passed on wisdom that could preserve lives and save them.
Now compare that with another reality, one in which the external changes, social or biological or climatic or whatever we wish, are rapid compared to a human generation time. Then parental wisdom may not be relevant to present circumstances. Then what we ourselves were taught and learned as youngsters may have dubious relevance to the circumstances of the day. Then there is a kind of intergenerational conflict, and that conflict is not restricted to intergenerational but is also intragenerational, internally, because the part of us that was trained twenty years ago, let's say, must be in some conflict with the part of us that is trying to deal with the difficulties of today. So I claim that there are very different ways of thinking for these two circumstances: when change is slow compared to a generation time and when change is fast compared to a generation time. There are different survival strategies. And I would also like to suggest that there has never been a moment in the history of the human species in which so much change has happened as in our time. In fact, it can be argued that in many respects there never will be a time when the change can be so rapid as it has been in our generation.
For example, consider transportation and communication. Just a couple of centuries ago, the fastest practicable means of transportation was horseback. Well, now it is essentially the intercontinental ballistic missile. That is an improvement from tens of miles per hour to tens of miles per second in velocity. It's a very substantial increment. In communication a few centuries ago, except for rarely used semaphore and smoke-signaling systems, the speed of communication was again the speed of the horse. Today the speed of communication is the speed of light, faster than which nothing can go. And that represents a change from tens of miles per hour to 186,000 miles per second. And never will there be any improvement on that velocity.
Now, it's a very different world if the fastest that a message can get to us goes from the speed of a horse or a caravel to the speed of light. The speed of light means that we can talk—in essentially real time—to anybody on the Earth or even on the Moon. [...]» (Sagan, Carl. The varieties of scientific experience. A Personal View of the Search for God. The Penguin Press. New York. 2006)
And...
 «In a complex universe, in a society undergoing unprecedented change, how can we find the truth if we are not willing to question everything and to give a fair hearing to everything? There is a worldwide closedmindedness that imperils the species.»

domingo, julho 05, 2015

Psicologia - Frase da semana, 05JUL15: SIM, É ISTO A ESSÊNCIA DO PSIQUISMO

Psicologia - Frase da semana, 05JUL15: SIM, É ISTO A ESSÊNCIA DO PSIQUISMO 



«[...] em que consiste o equilíbrio de um psiquismo qualquer,individual ou colectivo?
Seria este o aspecto de Pessoa na altura em que
escreveu a longa, rigorosa e contundente réplica.

Essencialmente no grau da sua atenção ao mundo exterior; e quanto mais ele é atento ao mundo exterior, tanto maior seu equilíbrio é.
E em que consiste a originalidade? Em ter ideias inteiramente próprias individuais; e "inteiramente individuais e próprias" quer dizer inteiramente subjectivas. Como, porém, o espírito elabora impressões vindas do exterior, a originalidade será tanto maior quanto maior for o número de impressões do exterior que o espírito é capaz de acolher e elaborar para a originalidade; isto é, quanto maior for a sua atenção ao mundo exterior; quer dizer, pois, quanto maior for o seu equilíbrio. Portanto, originalidade verdadeira e perfeita envolve equilíbrio, nunca é senão originalidade equilibrada.»
Fernando Pessoa, Correspondência, 1905-1922. Assírio  Alvim, 1999, pp.47-48.

Fernando Pessoa tem 24 anos quando escreve este notável pensamento; numa réplica a Adolfo Coelho, acerca do que este comentou sobre a "Renascença Portuguesa", movimento literário que tão empenhadamente Pessoa defendia para "as poesias características dos nossos novíssimos poetas".
Num longo texto que agora escrevesse - e não vou fazê-lo!, exploraria as seguintes vertentes:
  1. A arrepiante clareza de pensamento acerca da maneira como o ser humano conhece e cria o bem-estar.
  2. A tragédia que é a organização do ensino, da educação oficial das crianças e dos jovens, praticamente em todo o Mundo.
  3. O valor dos pensamentos juvenis, de que tantas vezes os próprios jovens se envergonham. Será esta vertente uma consequência da imediatamente anterior.
  4. O "mudo exterior", que é feito de pessoas, coisas e ambientes.

domingo, junho 28, 2015

Psicologia - Frase da semana, 28JUN15: O QUE É A EUROPA?, A REBOQUE DOS ACONTECIMENTOS ACTUAIS

Psicologia - Frase da semana, 28JUN15: O QUE É A EUROPA?, A REBOQUE DOS ACONTECIMENTOS ACTUAIS (influenciar a percepção individual da informação, contra-informação e desinformação que os meios de comunicação social veiculam) 


“Na velha Europa, começamos a ver, hoje, na América de há vinte anos atrás, a nossa própria imagem, a imagem do nosso próprio destino e, porventura ou desgraça, a imagem do destino do Planeta.” P. Manuel Antunes, em 20 de Abril de 1969.

Continua assim o autor:
A americanização do Antigo Continente inscreve-se já, largamente, na ordem dos factos.
E não é apenas na organização económica, na gestão das empresas e na mitologia do consumo, é também na tecnocracia das human relations e das public relations.
Assiste-se, em nossos dias, a um fenómeno análogo àquele que se verificou há mais de dois mil anos na área cultural do Mediterrâneo. «A Grécia vencida venceu, por sua vez, o seu fero vencedor», na frase célebre de Horácio. Mas o que o autor da Epistola ad Pisones não diz, decerto porque não chegou a presenciá-lo, é que o antigo vencido-vencedor terminou finalmente vencido, imitando certos costumes e revestindo uma certa mentalidade do povo dominador, ao tempo, pela superioridadeda sua técnica, da sua política, da sua administração e até, a partir de dado momento, da sua cultura.
Somos hoje, com relação ao novo Império Romano da outra margem do Atlântico, uma velha Grécia. Para bem e para mal. Vencidos-vencedores, começamos a ser submergidos por muitas coisas - umas desejáveis, indesejáveis outras - que lá tiveram o seu ponto de origem ou, quando menos, de desenvolvimento. O homo mechanicus, essa peça-mestra da «multidão solitária» pertence a esse número.
A seguir o P. Manuel Antunes explica o que é a "multidão solitária"
"Que é a «multidão solitária»? Simplificando muito e combinando as análises e as expressões de David Riesman e de Herbert Marcuse, diremos que a multidão solitária é um conglomerado ou um conjunto de homens unidimensionais numa sociedade multidimensional; de homens funções de uma rede complexíssima cujo valor é medido exclusivamente pela competência técnica e pela capacidade de manipular tanto as coisas como os seus semelhantes; de homens hetero-determinados, como lhes chama David Riesman, cheio de substância teórica e de substância empírica e de nada mais.
É contra o universo serial da «multidão solitária», ou contra o pavor da sua implantação, que procuram reagir, que vão procurando reagir, na América e no Velho Continente, grupos cada vez mais numerosos, sobretudo de jovens.
Portadores de carências afectivas profundas, esses jovens tentam preenchê-las, como se diz, pelos meios de bordo. Conhecemos alguns que recorrem à mecânica, em âmbitos restritos, do erotismo colectivo mais desenfreado. Conhecemos outros que, sem entrarem por tais excessos, procuram em certas «afinidades electivas» e sentimentais mais ou menos sãs, estabelecidas em pequenos grupos, a dimensão de humanidade que não encontram nas próprias famílias e que o mundo social mais vasto também não lhes oferece. Conhecemos ainda outros que recorrem aos paraísos artificiais da droga, para se evadirem de um universo «concentracionário» ou «contestacionário» que nem numa nem noutra forma os satisfazem.
Numa palavra, instáveis, buscam no limitado das relações e no seu estreitamento, até a uma forte intimidade colectiva e repartida, a estabilidade que, dia após dia, sentem fugir-lhes debaixo dos pés.
Parece difícil aceitar que todos esses caminhos de fuga ao peso da «multidão solitária» sejam realmente, e a longo prazo, caminhos de liberdade ou de libertação. Mas não haverá outros? Decerto que sim. O que importa é procurá-los e segui-los. Para isso existe ou deve existir a legião dos pais que o saibam ser, dos educadores desinteressados e dos psicólogos equilibrados.
Na espantosa mutação de que estamos a ser, a um tempo, espectadores e agentes, seria profundamente de lamentar que se salvassem as coisas e se perdessem os homens."

domingo, junho 14, 2015

O Texto Poético a explicar o que determina o Desenvolvimento Humano

Psicologia - Frase da semana, 14JUN15: UM FERNANDO ENCANTADO COM OUTROS 2 FERNANDOS


O Fernando encantado é o autor deste pequenino apontamento; o Fernando motivo do encontro dos 3 Fernandos é o Martins, que será depois o St.º António de Lisboa; o Fernando mediador é o padre Fernando Félix Lopes, que escreveu um muito belo livro sobre Santo António de Lisboa, o Doutor Evangélico.


“Dizem que a infância é a idade em que progressivamente, dia a dia, acordam as heranças que cada qual traz no sangue, e em que o ambiente, amolgando-as, vai afeiçoando a seu modo as almas tenras...” P. Fernando Félix Lopes

Não conheço outro texto que, com tão poucas palavras e de forma tão poética diga a toda a gente como cada um cresce, se desenvolve e se torna pessoa consciente da sua personalidade única e diversa! Continua assim padre Fernando:
«... Com tais heranças e amolgões compõem as crianças os sonhos de fantasias em que se lhes dealba o futuro.
A teoria até certo ponto bate certa. O sangue e o meio onde o homem cresce, não lhe determinam a vida por inteiro, pois há sempre pelo menos o imprevisto individual que pode interferir e desviar os determinismos das heranças e as influências do meio; todavia são sempre das forças que mais pesam no construir do homem.»
(p. FFL, "S. António de Lisboa doutor Evangélico", 2.ª edição, 1954, p. 26)
Estais vendo, queridos alunos, a expressão simples, lapidar, dos nossos mais importantes temas das aulas (a Genética; a influência Cultura e a Educação; e o Indivíduo, com as condições do seu Sistema Nervoso e dos seus Processos Mentais)

domingo, junho 07, 2015

Psicologia - Frase da semana, 07JUN15: OS TRABALHOS MONOGRÁFICOS, O CAPÍTULO DOS AGRADECIMENTOS E A EXPRESSÃO DA GRATIDÃO.

Psicologia - Frase da semana, 07JUN15: OS TRABALHOS MONOGRÁFICOS, O CAPÍTULO DOS AGRADECIMENTOS E A EXPRESSÃO DA GRATIDÃO.


Este texto é especialmente dedicado a uma querida aluna que muito, muito recentemente, me dizia que não incluiria um capítulo de agradecimentos no seu trabalho monográfico, porque não tinha ninguém  a quem agradecer.


“A Gratidão não é apenas a maior das virtudes, é também a mãe delas todas.” Marcus Tullius Cicero

“Gratitude is not only the greatest of virtues, but the parent of all others."

A escritora Pearl Buck, quando um dos seus filhos lhe perguntou se, mesmo que não sentisse arrependimento ou sentimentos de culpa, deveria ou não pedir desculpa, ela respondeu-lhe que sim; se muitas vezes o dissesse,  aos poucos começara a sentir, muito sinceramente, o que ao princípio apenas fazia por dever ou obrigação moral; e que isso fazia bem na relação das pessoas umas com as outras.
Apetece-me plagiar a ideia da escritora a propósito da gratidão.
Hoje de manhã, saía eu à pressa de casa para ir para a escola ajudar a arrumar as tralhas e a limpar o espaço da festa de ontem dos antigos alunos, cruzei-me com um casal de velhos vizinhos. O senhor levava pela mão a esposa, senhora a quem o Alzheimer vai levando a lucidez e o reconhecimento das pessoas suas amigas.  À aproximação recíproca logo o senhor me chamou a atenção, com uma piscadela de olho e um olhar especial, em direcção à sua companheira de tantos anos, para o estado mental da minha antiga vizinha.
A senhora reconheceu-me e, como sói dizer-se [Ui! Que expressão tão antiga, que agora raramente se usa,,,], demos dois largos e muitos saborosos dedos de conversa, imagine-se, sobre cães e gatos, os grandes animais de companhia nos lares de tanta gente.
Nem o mais leve sinal da terrível doença da boa senhora! Prolonguei o que pude a conversa - estava a ser tão agradável! -, até porque tive a sensação de que o senhor por momentos se esqueceu do estado mental da sua querida esposa; e seguramente faria bem à ternurenta senhora.
Ali ficámos até que a certa altura - repito, passado um bom par de minutos - o meu velho vizinho, de idade igual à minha mãe, estendendo-me a mão para o tradicional cumprimento, me diz "Aqui os velhotes já lhe tomaram muito tempo, são horas do senhor ir à sua  vida". A seguir despedi-me da senhora que me olhou bem nos olhos e com um sorriso largo, muito carinhoso, me disse "Obrigado por este bocadinho de tempo tão agradável!" Exactamente assim!
Entrei no metropolitano e, na cancela, o sistema de controlo avisou-me que eu teria de fazer o recarregamento do cartão, o que me fez perder a composição que estava a chegar e obrigou-me a esperar pela seguinte - mais 8 minutos de atraso para chegar onde devia ter chegado há muito!...
Pois bem, em vez de perder, ganhei. Aquela "perda" de tempo deu-me oportunidade de me reencontrar com um "velho" aluno, e logo lhe contei o encontro de momentos antes. Ele disse-me "O stor faz bem a toda a gente, anda sempre nisso". "Estás enganado - respondi-lhe eu -, eu é que deveria ter agradecido à senhora e ao senhor, eles é que me fizeram bem, mais uma vez me mostraram que a gratidão é rápida, custa pouco e sabe bem; se a treinarmos, torna-se fácil e torna-se poderosa - faz as pessoas sentirem-se bem e melhora as relações sociais. Uma senhora com Alzheimer... e deu-me uma lição de vida! Enquanto a doença não levar da senhora o que ela ainda tem de lucidez e bondade será sempre agradável estar ao pé dela."
A composição do metro parou nos Olivais. Demos aquele abraço, eu saí e ele continuou - nem fiquei a saber para onde ele ia; também não interessava. Antes da porta da carruagem fechar, ele levantou a voz e gritou-me "Obrigado por este pedacinho de tempo tão agradável!" . Voltei-me para trás e acenei-lhe à pressa como pude.  É verdade, eu fiquei bem, ele foi bem à sua vida - quer dizer, o pedacinho de gratidão que a minha querida vizinha me deixou nas mãos logo começou a espalhar a sua tão grande riqueza afectiva, a sua tão grande carga de humanidade.

domingo, maio 24, 2015

Psicologia - Frase da semana, 24MAI15: O PROFESSOR E O ALUNO - A MESMA PESSOA

Psicologia - Frase da semana, 24MAI15: O PROFESSOR E O ALUNO - A MESMA PESSOA



"És o melhor professor de ti mesmo, e isto será sempre verdade. Ninguém, realmente, consegue ensinar-Te seja o que seja a não ser que tu queiras ser ensinado.Pearl Buck

Quiçá, para ser rigoroso, deveria escrever esta afirmação de Pearl Buck assim: "És a melhor professor(a) de ti mesma, e isto será sempre verdade. Ninguém, realmente, consegue ensinar-Te seja o que seja a não ser que tu queiras ser ensinada."
A afirmação da escritora nascida nos Estados Unidos da América, e criada, desde muito pequena, na China, aparece num livro que tem como título "Para as minhas filhas com amor". Pearl Buck teve 7 filhas, sendo apenas uma delas filha biológica. Mais ainda: esta filha nasceu com uma doença genética grave (fenilcetonúria), doença essa que, se à data em que a criança nasceu (em 1920) se tivessem os conhecimentos médicos que hoje se têm, poder-se-ia ter evitado que desenvolvesse os gravíssimos sintomas de deficiência mental que se manifestam caso os cuidados médicos e alimentares não sejam imediatamente feitos. De facto, nesta doença, a genética dá-nos um tempo de intervenção antes de fazer explodir sobre o crítico bebé os efeitos terríveis de que é capaz.

A afirmação - em rigor, as duas afirmações - são crenças pessoais da mulher-mãe-escritora (Prémio Nobel da Literatura em 1938), certamente sintetizadas a partir de uma experiência pessoal de vida muito intensa e muito rica.

Num tempo, como o que agora vivemos, em que tanto governante, rodeado e "aconselhado" por "especialistas", "cientistas" e "sábios" aprofunda a obsessão do rigor formal e da padronização do ensino, todos - os governantes, os especialistas, os cientistas, os sábios; e o ensino - ajoelhados aos ditames dos desígnios do "Mercado", temos de ser capazes de lhes dizer "Parem!", "Parem e pensem!"; e, se isso for preciso, dar um valente par de estalos a cada um deles, a chamá-los à realidade.

A minha provocação é mesmo grande: são mesmo pares de estalos, em sentido literal, que admito, caso necessário; e não veja que consigamos pô-los a pensar lucidamente de outra maneira...


"Your best teacher is yourself, and this will always be true. No one, indeed, can teach You anything unless you want to be taught."

domingo, maio 03, 2015

Psicologia - Frase da semana, 03MAI15: O QUE VALE UM SER HUMANO?

Psicologia - Frase da semana, 03MAI15: O QUE VALE UM SER HUMANO?



"Na perspectiva cósmica, cada um de nós é precioso. Se um ser humano não concordar consigo, deixe-o viver em paz. Não vai encontrar outro igual em cem milhões de galáxias."
Carl Sagan

Foi este homem que, há muitos anos, quando li a obra de que tirei agora este conjunto de três afirmações, me fez ganhar a consciência do infinitamente grande e do infinitamente pequeno.
Muito recentemente, outro autor, David Bodanis, conseguiu dar-me a clara consciência do poder tremendo do infinitamente pequeno - que só aparentemente é simples. Poder de destruir, de transformar, num jogo assombroso entre a energia, a massa e a velocidade. Foi precisamente um desses homens - que um professor consagrado opinou "Não hás-de ser ninguém." - que eu encontrei na confluência de Sagan e Bodanis: Einstein.
Einstein encontrou - porque intencionalmente o procurou! - o seu espaço para viver em paz e pensar de maneira diferente dos outros seres humanos. E com essa determinação pessoal trouxe-nos o que de fascinante sabemos sobre as relações entre a Energia e a Massa.
A regulação da interacção pessoal, bem como a regulação da vida dos grupos, na verdade, pede o mais sincero e honesto de cada um de nós.

"Every one of us is, in the cosmic perspective, precious. If a human disagrees with you, let him live. In a hundred billion galaxies, you will not find another."

domingo, abril 19, 2015

Psicologia - Frase da semana, 019ABR15: O QUE É REAL E O QUE NÃO É.

Psicologia - Frase da semana, 019ABR15: O QUE É REAL E O QUE NÃO É.

"Todo lo que puedes imaginar es real" é uma afirmação cuja autoria o Tempo atribuiu a Pablo Picasso.
Mais do que contestar ou asseverar tal autoria, o que pode ser interessante, no olhar da Psicologia, é o que vale uma afirmação assim dita por um artista pintor.
Comecei por escrever a frase na que terá sido a língua materna de Picasso; mesmo que a França tenha sido o país que escolheu para viver em permanência; e é em França que se encontra enterrado.
Como psicólogo, preferiria dizer que "Tudo o que se pode imaginar existe."
Mas esta é apenas a minha opinião. Na verdade, a frase que o artista terá proferido é mesmo esta:

Os saltimbancos, pintado em 1905. Parece que teve uma gestação demorada,
curiosamente, 9 meses. Que realidades inspiraram o pintor, ou que realidades
quis ele retratar ou simbolizar, não sei... Sei que faz parte da minha realidade
de há muitos anos, há muitos anos que me inspira e ajuda a pensar.
"Tudo o que se pode imaginar é real."

No reino da mente, tantas vezes chega a ser terrível o que cada indivíduo mostra a si mesmo como real e como imaginário. A nossa capacidade de fantasiar, de imaginar é infinita - e leva-nos aos céus e aos infernos do bem-estar pessoal.
Também Picasso terá experimentado este balanceamento, que tanto terá marcado as vicissitudes dos seus afectos; da criação dos seus quadros e do desenvolvimento das suas obras.
Sim, seja, tudo o que se pode imaginar é real - pelo menos na força e no determinismo com que marca a realidade do pensamento, da acção e do relacionamento interpessoal da pessoa que imagina.

"Everything you can imagine is real."

domingo, abril 12, 2015

Psicologia - Frase da semana, 012ABR15: SABEDORIA, PODER, IGNORÂNCIA... E GUERRA

Psicologia - Frase da semana, 012ABR15: SABEDORIA, PODER, IGNORÂNCIA... E GUERRA


Sabedoria - inteligência - conselho - auto-regulação - auto-controlo - humildade - ignorância - as boas e as más decisões. É sobre tudo isto que, com poucas palavras, o padre António Vieira discorre de forma notável:
"Os sábios em qualquer faculdade mais sabem ouvindo, que discorrendo, e mais acompanhados, que sós."
Terá sido a 30 de maio de 1639 que o padre António Vieira proferiu estas palavras na Festa dos Soldados, "estando na Baía a Armada Real, com muita da primeira nobreza de ambas as Coroas."  Portugal ainda estava sob o domínio de Castela.
"O maior perigo, e perdição da guerra é cuidarem os Doutores desta arte, que sabem tudo. Os sábios em qualquer faculdade mais sabem ouvindo, que discorrendo, e mais acompanhados, que sós. Meliores aestimantur qui soli non omnia praesumunt: diz o grande político Cassiodoro: "que sempre foram estimados por melhores os que de si só não presumem tudo". Já se a presunção do saber se ajunta à soberania do poder, como em Nicodemos, que era Mestre, e Príncipe ; nestes dois resvaladeiros está certo o precipício, e a ruína. Para conseguir efeitos grandes, e para levar ao cabo empresas dificultosas, mais segura é uma ignorância bem aconselhada, que uma ciência presumida. A primeira vitória para alcançar outras muitas é sujeitar o juízo próprio, quem não é sujeito ao mando alheio. Perguntado Alexandre Magno com que indústria, ou com que meios em tão breve tempo se fizera senhor do mundo, diz Estrobeu que respondera estas palavras: Consiliis, eloquentia, et arte imperatoria: "Com os conselhos, com a eloquência, e com a arte de governar exércitos". No último lugar pôs a arte, e no primeiro o conselho ; porque o conselho é a arte das artes, e a alma, e inteligência do que ela ensina. A arte prescreve preceitos em comum, o conselho considera as circunstâncias particulares; a arte ensina o que se há-de fazer, o conselho delibera quando, como, e por quem." (p. António Vieira. Obra Completa, Tomo II, Vol. XIII, p. 62. Círculo de Leitores)

quarta-feira, abril 08, 2015

Psicologia - Frase da semana, 05ABR15: EU... ME... MEU...

Psicologia - Frase da semana, 05ABR15: EU... ME... MEU...


Jon Kabat-Zinn, na obra que publicou com o título original "Coming to our senses. Healing ourselves and the World through Mindfulness" destaca, a páginas tantas, o que diz ser a mensagem fundamental de Buda; ele diz mesmo que foi o próprio Buda que a considerou assim:
Buda caminhando
"Não devemos agarrar-nos a nada como sendo eu, me ou meu."
E depois explica: Por outras palavras, nada de apegos - sobretudo a ideias fixas sobre si-mesmo e sobre o que se é."

“That sentence is: “Nothing is to be clung to as I, me, or mine.” In other words, no attachments—especially to fixed ideas of yourself and who you are.”

Cette phrase est la suivante: "On ne doit s'accrocher à rien comme étant je, moi ou mien" En d'autres termes, pas d'attachement - en particulier `des idées arrêtés sur soi-même et sur celui ou celle que l'on est.

Vale a pena acrescentar aqui o que o autor entusiástico expoente da ideia da Plena Consciência escreve a seguir:

"À primeira vista, é uma mensagem difícil de engolir, porque põe em questão tudo o que nós pensamos que somos, o que, no essencial, parece vir a partir daquilo com que nos identificamos: os nossos corpos, os nossos pensamentos, os nossos sentimentos, as nossas relações, nossos valores, o nosso trabalho, as nossas expectativas - o que é "suposto" acontecer e como as coisas "supostamente" se desenrolam connosco para que possamos ser felizes -, e as nossas histórias - de onde viemos, para onde vamos e quem somos.
Mas não vamos reagir demasiadamente depressa, mesmo que num primeiro momento o conselho do Buda possa parecer um pouco assustador, ou mesmo estúpido ou irrelevante. O que conta aqui é a palavra "agarrar-nos". É importante compreender o que se entende por "agarrar-se" (ou apegar-se) de modo a não interpretar mal essa injunção como uma negação de tudo que nos é precioso, quando, na verdade, ela é um convite a entrar mais plenamente em contacto directo e a estabelecer uma relação directa, viva, com todas as pessoas que nos são especialmente queridas e tudo o que é essencial ao pleno sentimento de bem-estar pessoal - corpo, mente, alma e espírito.
Isso inclui o que é difícil de lidar ou assumir - o stresse e a angústia da condição humana, assim que surgem nas nossas vidas, como acaba sempre por acontecer, seja de uma maneira ou de outra." 
(pp. 53-54)

domingo, março 29, 2015

Psicologia - Frase da semana, 29MAR15: O NOTÁVEL PODER DA TRANSMISSÃO ORAL!

Psicologia - Frase da semana, 29MAR15: O NOTÁVEL PODER DA TRANSMISSÃO ORAL!


http://www.smh.com.au/technology/sci-tech/aboriginal-stories-of-sea
-level-rise-preserved-for-thousands-of-years-20150213-13d3rz.html
"Sem fazerem uso de línguas escritas, tribos aborígenes foram capazes de passar, ao longo de centenas de gerações, com grande rigor na transmissão oral, memórias de vida dos períodos pré-, trans- e pós-inundações glaciares costeiras. Algumas tribos conseguem ainda apontar para ilhas que não existem mais, e dizer os seus nomes originais ."

http://www.smh.com.au/technology/sci-tech/aboriginal-stories-of-sea-level
-rise-preserved-for-thousands-of-years-20150213-13d3rz.html
Num tempo em que se vive o predomínio da mensagem escrita rápida, tipo usa-e-deita-fora; a fotografia fácil do telemóvel pouco exigente; a consulta imediata na Internet, sem memória, apenas com Presente absoluto; e, finalmente, a busca solitária da informação em vez da conversa partilhada, esta constatação mostra-nos o extraordinário potencial da atenção e da capacidade de memorização humana; e do valor da comunicação oral - a exactidão descritiva, o rigor factual, ao respeito fiel à tradição recebida da geração precedente; a consciência da importância da preservação do conhecimento ancestral.


"Without using written languages, Aboriginal tribes passed memories of life before, and during, post-glacial shoreline inundations through hundreds of generations as high-fidelity oral history. Some tribes can still point to islands that no longer exist—and provide their original names." http://www.scientificamerican.com/article/ancient-sea-rise-tale-told-accurately-for-10-000-years/?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter

segunda-feira, março 23, 2015

Frase da semana, 22MAR15: MEIO POR MEIO, O LIMITE DOS SIMBOLISMOS

Psicologia - Frase da semana, 22MAR15: MEIO POR MEIO, O LIMITE DOS SIMBOLISMOS


"Um copo meio vazio de vinho é também um copo meio cheio, mas uma meia mentira de maneira nenhuma é uma meia verdade."

A half-empty glass of wine is also one half full, but a half lie, by no means is a half truth. Jean Cocteau

Na acepção popular, a afirmação de Cocteau é uma metáfora.
Os livros sérios dos especialistas das letras, das frases e das línguas enquadram o estudo das metáforas nas funções da linguagem. Dizem eles:
"A retórica tradicional distingue três funções da linguagem - docere, placere, movere. A primeira destas funções, docere, equivale à transmissão de informação lógica. Apesar de a imaginação constituir o ponto fulcral da metáfora, esta ao destacar uma característica dominante, permite pôr em relevo o elemento mais relevante para uma melhor interpretação da mensagem. Placere, a segunda função da linguagem, designa a função estética, que assume um papel ambivalente - ao mesmo tempo que enriquece o vocabulário e embeleza o discurso, procura captar o interesse do seu interlocutor. Por fim, movere, cujo sentido é definido como a persuasão, é também visível na figura metafórica. Uma mensagem persuasiva só alcançará o seu objectivo final através de um apelo à sensibilidade e à afectividade." (ver aqui)
Pois, que o poder fascinante das palavras bem compostas umas a seguir às outras não nos deixe presos nos meios dos caminhos. 

domingo, março 15, 2015

Psicologia - Frase da semana, 15MAR15: O TEMPO, ESSE GRANDE ESCULTOR

Psicologia - Frase da semana, 15MAR15: O TEMPO, ESSE GRANDE ESCULTOR


"A persistência da memória", de Salvador Dali, 1931
O pensamento é escravo da vida, e a vida é o bobo do tempo.

“But thoughts the slave of life, and life, Time’s fool, [And Time, that takes survey of all the world, Must have a stop.”] William Shakespeare, King Henry IV, Part 1

Tanto quanto se sabe, o autor do texto que se segue é desconhecido; mas é um texto citado com muita frequência.

Para perceber o valor de UM ANO, pergunte a um estudante que repetiu de ano. Para perceber o valor de UM MÊS, pergunte para uma mãe que teve o seu bebé prematuramente. Para perceber o valor de UMA SEMANA, pergunte a um editor de um jornal semanal. Para perceber o valor de UMA HORA, pergunte aos enamorados que estão esperando para se encontrar. Para perceber o valor de UM MINUTO, pergunte a uma pessoa que perdeu um avião.Para perceber o valor de UM SEGUNDO, pergunte a uma pessoa que conseguiu evitar um acidente. Para perceber o valor de UM MILISSEGUNDO, pergunte a alguém que conquistou apenas a medalha de prata nuns Jogos Olímpicos.
Nota: Marguerite Yourcenar é a autora da frase que dá título a este apontamento.

domingo, março 08, 2015

Psicologia - Frase da semana, 08MAR15: CRENÇAS E SUPERSTIÇÕES

Psicologia - Frase da semana, 08MAR15: CRENÇAS E SUPERSTIÇÕES


Johan Cruyff - Quanto vale o acto de se benzer quando se entra em campo?

Johan Cruyff foi um jogador de futebol genial! A seguir foi treinador. Treinou o Barcelona e fez da
equipa um grupo de homens que espalhava classe, arte, inteligência e muito sucesso. O Barcelona era - as equipas são todas assim - feita de homens que têm crenças e superstições. Uma delas, que vemos frequentemente em equipas sobretudo latinas é o se benzer quando se entra em campo.
A afirmação de Cruyff sobre esse gesto tão cheio de crença tão cheio de superstição é, também ela, portadora de arte, e inteligência e eficácia que nos deixam completamente desarmados:
"Não sou crente. Em Espanha, os vinte e dois jogadores benzem-se antes de entrar em campo. Se resultasse, só havia empates."
Pois, fica tudo dito.

In English: "I’m not religious. In Spain all 22 players make the sign of the cross before they enter the pitch. If it works all matches must therefore end in a draw."


domingo, fevereiro 22, 2015

«"O prazer de ser capaz!" - Isto é um plágio!»

(texto apresentado no Ciclo de Conferências "Cruzar saberes: Um percurso reflexivo transdisciplinar", no Centro de Formação de Escolas António Sérgio (Lisboa), em 20 de Fevereiro de 2015)
Captamos, integramos, assimilamos a Realidade através das entradas sensoriais com que a biologia da espécie nos equipou; conduzimos depois essas sensações para o cérebro, que a Evolução trouxe a um estádio espantoso de desenvolvimento e competência. Generosa, a Evolução equipou-nos também com uma extraordinária capacidade de produzir sons, e com isso criámos falas que transportam significados a propósito da Realidade que nos envolve, mas também da que criamos dentro de cada uma das nossas cabeças.
Sem que ainda o saibamos explicar, os bebés novos falantes ganham muito rapidamente o domínio das gramáticas das línguas e aceleram exponencialmente a capacidade de aprender, de criar e de comunicar… até que – repito-o – os professores, com a conivência dos pais – refreiam essa notável competência infantil e distorcem-na; isso mesmo, distorcem-na. Nos ministérios governamentais tutelares, gentes de valor muito duvidoso enchem-se da ilusória crença de que têm a sabedoria para tornar as suas crianças os mais capazes prémios nobel do Mundo e enchem os professores de directivas e regulamentações para que realizem essa balofa ilusão – e, distorcendo professores, distorcem o desenvolvimento do pensamento, da inteligência e da capacidade de aprender dos alunos, estragando-lhes, quantas vezes irremediavelmente, o prazer de serem capazes.
(a versão completa do texto, certamente bem mais humorada, está aqui:
https://sites.google.com/site/autoregulacaodocomportamento/textos-pessoais)

segunda-feira, setembro 15, 2014

Psicologia - Frase da semana, 15SET14: RECOMEÇAR COM EÇA DE QUEIROZ

Psicologia - Frase da semana, 15SET14: RECOMEÇAR COM EÇA DE QUEIROZ:

Recomeçar a escola - O PRAZER COLETIVO DA CRIAÇÃO DO PENSAMENTO

"Estou a vê-lo, de pé, curvado sôbre a alta mesa de trabalho de Oliveira Martins, esguio, no comprido fraque negro escorrido ao longo do corpo esquelético, o perfil adunco contraído no seu rictus irónico, o monóculo encravado na arcada superciliar, a mão fina e delicada correndo vertiginosamente sôbre as largas fôlhas de papel assetinado. (...)
A cada instante, Eça de Queiroz interrompia a escrita e lia um trecho do trabalho já feito, entre um côro de ruidosas gargalhadas. Outras vezes pedia idéias, exigia ditos sublimes, ¡reclamava génio!... E logo remergulhava na redacção dessa formidável e tintamarresca pasquinada. (...)
Ah! não a esquecerei nunca, essa noite alegre de boémia do espírito, de Carnaval literário, em que êsses grandes intelectuais foliavam como pierrots enfarinhados, atirando às mãos ambas, sobre a multidão, sobre os políticos, os literatos, os homens do dia, ¡os confetti e as serpentinas da chalaça, das alusões picantes, da desenvolta fantasia clownesca! (...)
Ouvir conversar êsses homens constituía, com efeito, um regalo epicurista da inteligência, uma verdadeira delícia espiritual."
(Luís de Magalhães, in «Eça de Queiroz, "In Memoriam"». Coimbra, Atlântida, 1947, p. 233-247)
NOTA: mantém-se a grafia da época.

domingo, junho 08, 2014

Psicologia - Frase da semana, 09JUN14: DE QUE COR ÉS TU?

Psicologia - Frase da semana, 09JUN14: DE QUE COR ÉS TU?

Amanhã concluirei o relacionamento formal com os meus alunos do 12.º ano deste ano escolar. É dia de dar notas. De Setembro até à sexta-feira passada, falámos muito, pensámos muito; e, sobretudo, criámos entre nós e com outros fora de nós, em Portugal e no Mundo inteiro - sim, no Mundo inteiro! -, muitas coisas de valor, de muita Cultura e Humanidade.
Este pequeno excerto da entrevista de Agualusa e Mia Couto, da edição do Público de hoje, tem muito a ver com as descobertas que fizemos e com o olhar sobre as Pessoas e o Mundo que inventámos entre nós e partilhámos com os outros.
Simbolicamente, esta entrevista chegou no momento certo! É que no decorrer da semana o próprio Mia Couto nos disse que podemos contar com ele para as aulas de Psicologia no próximo ano!
Na entrevista, a jornalista pergunta a Agualusa: "Os adultos não vêem?"
Agualusa responde: Nalguns casos, vêem à medida que envelhecem. As crianças vêem o evidente. Costumo contar uma história da minha filha, quando era bem pequenina. Uma senhora fez-lhe uma pergunta muito idiota. "De que raça és tu?" Ela não entendeu. Não tinha sequer o conceito de raça. A senhora tentou corrigir a pergunta, errando ainda mais. "De que cor és tu?" A minha filha olhou muito espantada. 

"Mas não vês que sou uma menina? As meninas são pessoas. As pessoas têm cores diferentes. A minha língua é vermelha, os meus dentes são brancos, o meu cabelo é castanho."
Temos todas as cores. É preciso uma criança de quatro anos para dizer o óbvio.

domingo, junho 01, 2014

Psicologia - Frase da semana, 02jun14: Ecos do Dia Mundial da Criança

Psicologia - Frase da semana, 02JUN14: Ecos do Dia Mundial da Criança

"A protecção e a segurança não acontecem por acaso, são o
http://photos.stevemccurry.com.s3.amazonaws.com
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resultado de um consenso colectivo e de investimento público. Devemos aos nossos filhos, os cidadãos mais vulneráveis ​​na nossa sociedade, uma vida livre de violência e medo."
"Não há expressão mais pura da alma de uma sociedade do que a maneira como essa sociedade trata as suas crianças." Nelson Mandela, citado por Steve McCurry na sua extraordinária galeria de fotografias CHILDREN.



"Safety and security don't just happen, they are the result of collective consensus and public investment. We owe our children, the most vulnerable citizens in our society, a life free of violence and fear." "There can be no keener revelation of a society's soul than the way in which it treats its children." - Nelson Mandela

domingo, maio 25, 2014

Psicologia - Frase da semana, 26mai14: A Personalidade e o que a determina

Psicologia - Frase da semana, 26mai14: A Personalidade e o que a determina
Henry Murray foi autor de um dos grandes clássicos na esfera dos testes de  projectivos da personalidade, o T.A.T.
Clyde Kluckhohn era um antropólogo, que nem sempre pensou a mesma coisa sobre a igualdade e as diferenças rácicas, étnicas e biológicas entre os diferentes grupos humanos.


"Cada homem é, nalguns aspectos,
a) igual a todos os homens
b) igual a alguns outros homens
c) como mais nenhum outro homem é."



EVERY MAN is in certain respects
a. like all other men,
b. like some other men,
c. like no other man.
Henry A. Murray and Clyde Kluckhohn, from Personality in Nature, Society, and Culture, (1953).

Nota: Recuperei esta afirmação de um texto de apoio ao estudo da Personalidade, que fez parte da minha formação de base em Psicologia, no final dos anos 70. Nesta altura, corrijo a data do texto que nos foi distribuído, escrito à máquina, para fotocopiarmos: a afirmação não é de 1958, mas de 1953.